Reforce | Acompanhamento Pedagógico


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os intelectuais e a “má literatura” ou uma simples crítica sobre a crítica.

Participação mais que especial do amigo (querido demais) Edilton Reinaldo. Espero que gostem! Ótima leitura =)

***

Lembro com certa nostalgia do meu primeiro dia de aula, quando ingressei no curso de LETRAS da Universidade Estadual de Goiás, no agora longinquo ano de 2010: A recepção calorosa (e por vezes suja) dos veteranos, as trocas de olhares assustados dos novatos, o nervosismo latente, potencializado em igual proporção pela completa ignorância acerca dos tramites legais que envolvem a jornada de autoconhecimento de um calouro, a insegurança diante das inúmeras possibilidades de aprendizado e enriquecimento profissional e intelectual, proporcionadas pelo ingresso em uma instituição de ensino superior… E, acima de tudo isso, ainda lembro-me com perfeita clareza, da primeira frase que ví escrita em um quadro negro na universidade: “HARRY POTTER NÃO É LITERATURA!”. Da mesma forma, lembro-me com certa nostalgia de minha reação na época (que continua sendo a mesma nos dias atuais); um ligeiro entreabrir de lábios tortos, um soerguer de sobrancelha e um suspiro indignado seguido de um: “COMO É QUE É?”
                É curioso como do ponto de vista dos críticos e de alguns estudantes de letras (e alguns outros cursos, que se consideram um pouco mais intelectualizados do que nós, meros mortais, tenho que acrescentar) a maioria dos blogs de literatura simplesmente não fala sobre literatura. “Paulo Coelho? Stephenie Meyer? Dan Brown? J.K. Rowling? Isso não é literatura! Isso é lixo verbalizado!”.
Particularmente falando, sinto-me inclinado a achar que é um erro tentar separar a má literatura da literatura, como se fossem duas coisas completamente distintas. Longe de mim defender a literatura ruim. Textos mal construídos, com diálogos e situações exageradamente inverossímeis - até mesmo para a mais fantástica das obras - e a profundidade de uma colher de sobremesa, não merecem lugar cativo no cânone literário, ou sequer no recanto mais obscuro e poeirento de nossas estantes. Entretanto, isso não me impede de questionar se essa pessoas estão mesmo certas quando tentam separar o joio do trigo.

Do MEU ponto de vista, a arte não é essencialmente bonita ou bem feita, visto que uma de suas diversas características pressupõe justamente a exteriorização de nossas próprias imperfeições. Um quadro mal pintado deixa de ser arte porque foi mal pintado? A falta de uma rima ou de uma linha estilística específica relega o poema ou o romance a um segundo (e indigno) plano? Os versos livres do Romantismo, em contra-partida á métrica exagerada do Racionalismo, por exemplo, inferiorizaram o segundo com relação ao primeiro? O que dizer então de Saramago e seu Nobel, compartilhado pacificamente entre seu talento e a escassez de pontuação de seus romances? Ou da literatura reinventada de Cortázar com seu “último round”, dialogando, por vezes, de maneira quase caótica com as imagens e as experimentações estilísticas que romperam com a tradicionalidade da literatura latino americana? Ou até mesmo de Joyce e seu quase interminável fluxo de consciência que ajudou a alavancar o modernismo? Seriam todos escritores incompetentes por que não seguiram as normas estilísticas pré-estabelecidas pelos clássicos ou eruditos de suas respectivas épocas? Guardadas as devidas proporções, o que diferencia a má literatura da “literatura de verdade?” (se é que há essa diferenciação). É um caso a se pensar, de preferência com a mente aberta.


Ed   =)

sábado, 24 de agosto de 2013

Músicas que me edificam: "Tudo é longe"

Hoje quero lançar uma série no blog: Músicas que me edificam e traduzem tudo o que sinto e nem sempre consigo dizer. E pra começar com grande estilo, a música de hoje é do talentosíssimo Duca Leindecker, Tudo é longe.

Mas antes da música, um pouquinho do cantor.

Duca Leindecker, nascido em Porto Alegre é músico e líder da banda Cidadão Quem. Durante os anos de 2008 a 2012 fez parceria com Humberto Gessinger, líder da banda Engenheiros Do Hawaii (exército de um homem só) com o duo Pouca Vogal (na minha simples opinião, uma das melhores bandas que eu já ouvi). Atualmente Leindecker segue carreira solo, e lançou seu primeiro álbum deste momento intitulado Voz, Violão e Batucada (álbum super original e totalmente inspirativo). A música do post de hoje está neste álbum e é a mais querida do momento, se encontrando no top da minha playlist.



Tudo é longe

Culpar alguém longe
Pra se aliviar
Do que perto
É difícil suportar
É difícil de encarar
Calçar os sapatos
De alguém que se foi
Esperar que tudo fique pra depois
Pra poder se aliviar
De perto
Tudo é longe
Quero descançar das pessoas
Do relógio despertar
Da torcida pra acertar
Sair a procurar alguém que possa te agradar
Tudo é longe
Deixar um pouco de você em cada lugar
Tudo é longe
Culpar alguém longe
Pra se aliviar
Do que perto
É dificil suportar
É difícil de encarar
De perto
Tudo é longe
Quero descansar das pessoas
Do relógio despertar
Da torcida pra acertar


P.S.: Não consegui colocar o vídeo no blog, pois não o reconheceram. Mas disponibilizei o link pra quem quiser conhecer essa música tão linda!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Leitura na infância e o papel do professor

Nas aventuras em sala de aula, posso perceber que nem sempre é fácil utilizar a leitura, pois muitas crianças acham uma atividade chata e assim não se interessam. Mas posso perceber mesmo com a pouca experiência que tenho, que grande parte dessa atitude advém do professor, por não saber ao certo como introduzir a leitura no processo de aprendizagem.

Percebo o quão benéfico pode ser ao aluno esta prática, pois possibilita a ampliação do seu conhecimento além de desenvolvimento na escrita, mas esta atividade precisa estar acompanhada de um “sentido”. Segundo Antunes (2003), no que se refere ao ensino da leitura encontramos:

“uma atividade de leitura centrada nas habilidades mecânicas de decodificação da escrita, sem dirigir, contudo, a aquisição de tais habilidades para a dimensão da interação verbal – quase sempre, nessas circunstâncias, não há leitura, porque não há “encontro” com ninguém do outro lado do texto.” (Antunes 2003, p. 27)

Sendo assim, compreendo que não basta apenas entregar os livros aos alunos, mas é necessário que essa atividade esteja ligada ao uso social e que a interpretação transcenda o simples fato de que “se limita a recuperar os elementos literais e explícitos na superfície do texto” (Antunes, 2003 p. 28).
Segundo Guimarães e Alexandre (2011, p. 3)

“é importante ao profissional da educação entender e ensinar que ler não é simplesmente um ato de percorrer com os olhos o que está escrito, ou ainda decodificar as letras, palavras, figuras de linguagem, ignorando, por assim proceder, o aspecto principal de uma leitura que é o apreender os significados diversos empreendidos no texto, significados estes que formam no leitor a capacidade de introspecção e reflexão sobre si mesmo.”

A partir da busca dentro de si, o indivíduo estará pronto para interagir com o grupo trocando experiências que enriquecerão o grupo em questão. Ao acontecer à troca de conhecimento baseada na interação social, tendo por base a leitura, haverá respeito ao ouvir o próximo e compreender a forma como cada um se porta diante de determinadas situações.







Referência Bibliográfica
ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003 – (Série Aula; 1).

GUIMARÃES, Maria Severina Batista. ALEXANDRE, Sueli de Fátima. Leitura e ensino de literatura na escola: Planejamento e motivação. REVELLI – Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas. ISSN 1984-6576 – v. 3, n. 1 – março de 2011 – p. 196-204 – www.ueg.inhumas.com/revelli

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Educação Musical e Formação de Professores #2


 Heitor Villa Lobos (1887-1959) um dos maiores músicos brasileiros, e fiel defensor do ensino da música nas escolas, afirmou que:

Não estamos em condições de cogitar da formação de artistas. Para quê educar artistas, quando não há público para apreciá-los, quando falta ambiente onde possam evoluir? Tudo, pois, está girando em torno de um problema: educar o povo é dar-lhe o sentido do belo e inculcar-lhe o culto a arte (VILLA-LOBOS, 1959 p.14 apud BRESSAN, 1989 p.29)

Sendo assim, é necessário compreender que o ensino da música é importante não para a criação de um artista e sim para a apreciação da arte, pois é através desta que o indivíduo desenvolve a sensibilidade, motivação e entusiasmo à criatividade e consequentemente, a percepção de mundo. Porém é valido ressaltar que a música deve ser entendida dentro da história, do conflito de classes, da produção cultural em massa, pois é importante que se tenha uma visão crítica sobre arte, educação e também do ensino da música, que exige múltiplas interações e contradições (BARRADAS, 2008).
A música em sua essência diz muito sobre quem a criou e sobre os dilemas de uma sociedade que está em constante transformação. E é nesse sentido que o professor de música precisa levar o ensino dessa área da arte, pois como disse anteriormente, a música faz parte da história, onde as canções estão carregadas de configurações linguísticas, imagens literárias além, de se constituírem importantes fontes históricas, como por exemplo, a música de Chico Buarque “Cálice”, que retrata um momento histórico do nosso país, que foi o período da Ditadura Militar, dentre tantas músicas e artistas nacionais e/ou internacionais.
Com isso, a formação do professor de música é de suma importância, pois se percebe que os atuantes nas escolas são músicos instrumentistas que perceberam na licenciatura uma forma de conseguir aquele “a mais” financeiro que lhes faltava. Músicos esses, que não tem nenhum preparo didático e pedagógico para lidar com a rotina da sala e da escola, o que leva a um ensino técnico e sem nenhum preparo para vida.
É importante compreender a formação do professor como um processo contínuo, que implica pensar tanto no espaço de formação como no espaço da atuação e profissionalização do mesmo. Bellochio (2003) afirma que é necessário compreender a formação do professor para além da formação inicial, potencializando assim a própria vida do professor em suas práticas educativas e sua formação para a autonomia.
No caso específico do professor de música, além das práticas pedagógicas, os formadores precisam se atentar para múltiplas formas de ensinar música no social, sendo encarado à produção musical fora do espaço escolar.
A formação do professor de música precisa ser desenvolvida tanto no campo da música e do saber pedagógico da educação, onde serão contextualizados e vivenciados. É importante ressaltar que o professor de música precisa se construir como sujeito que transcende o próprio objeto do conhecimento – música – e que tem sólida formação cultural. Isso diz respeito ao domínio do conhecimento em educação musical e pedagógico, que podem lhe possibilitar o crescimento pessoal e compreensão do processo ensino/aprendizagem da música.
Vianna (1993) declara que a diferença entre os cursos de licenciatura e bacharelado em música é a epistemologia, baseada na dicotomia ensino-pesquisa entre o saber e o produzir o conhecimento (VIANNA, 1993 p. 27 apud DENARDI, 2008 p. 56). Sendo assim a formação do professor de música necessita de cuidados referentes ao currículo e a formação pedagógica do mesmo, atentando-se não para a aptidão e talento musical, mas sim tendo em mente que o ensino da música é uma área do conhecimento que precisa ser aperfeiçoada, onde o processo ensino-aprendizagem está sempre em pauta.
Quanto ao currículo é importante salientar que as disciplinas musicais, pedagógicas e didáticas devem ser niveladas com o mesmo grau de importância, para que a formação do professor de música alcance todos os níveis de excelência, onde o conteúdo e a metodologia sejam revistos para que haja a possibilidade de melhoria no ensino-aprendizagem.
Assim, a base para um ensino de qualidade no campo da música é, entender que ela não é apenas uma meta da Educação, mas também um processo que é fundamentalmente criativo, onde prepara o individuo para a cidadania, criando e consolidando o sentido da autonomia, onde o ser e a sociedade podem ser interpretados à medida que são analisados, ou seja, gera no individuo concepção de mundo.
 Sobre isso, Nunes (1996) afirma que:

Essa expressão representa a maneira como o homem pensa a sociedade, o conhecimento científico, a educação, a escola, a organização da cultura e da política. Em outras palavras, concepção de mundo é o conjunto de conceitos que constrói a ideologia do professor. (NUNES, 1996, p.11 apud BARRADAS, 2008 p. 82)

Concepção de mundo, nada mais é do que conceitos que são construídos, e o professor de música se torna indispensável nesse processo, pois o professor é o mediador do conhecimento, é aquele que fornece subsídios necessários para o desenvolvimento do seu aluno. A forma como a criança percebe o mundo a sua volta depende de como o professor o interpreta, sendo esse o mediador.
É interessante perceber que ao situar a música em um contexto histórico, onde o seu conteúdo é carregado das mazelas sociais e as dores do amor, entendemos que a música e as palavras unidas formam um todo, e que nenhuma das duas separadas poderia evocar. Sendo assim, o ensino da música vai muito além do que apenas cantar, tocar um instrumento ou dominar a teoria musical. Diz respeito do universo de uma pessoa, das suas construções e desconstruções em relação a ideais, valores, de quem ele é e pretende ser, e de como se encontra o mundo a sua volta.



REFERÊNCIAS

BARRADAS, F. C. A Historicidade da canção e a aplicação pedagógica, p. 79-94, abr./jun. 2008. Akrópólis: Revista de Ciências Humanas da Universidade Paranaense. Umuarama, 1997.

BELLOCHIO, Cláudia Ribeiro. A formação profissional do educador musical: algumas apostas. Revista da ABEM, Porto Alegre, v.8, 17-24, mar. 2003.

BRESSAN, Wilson José. Educar cantando: a função educativa da música popular. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

DENARDI, Christiane. Professores de música: história e perspectivas. Curitiba: Juruá, 2008.




sexta-feira, 12 de julho de 2013

O que é ensinar português para falantes de Língua Portuguesa?

O que é ensinar português para falantes de Língua Portuguesa? Essa pergunta deve estar relacionada à outra: Qual o objetivo de se ensinar português para falantes de Língua Portuguesa?

Essa relação se faz necessária se queremos encontrar respostas que consigam alcançar a complexidade que tais questionamentos nos apresentam.
A língua portuguesa, assim como qualquer outra língua, além de servir como meio de comunicação entre os indivíduos de uma sociedade, serve também para informar, para ordenar ou pedir algo a alguém. Através da linguagem podemos convencer, ofender, mentir e induzir as pessoas a tomar certas atitudes.
A variação linguística é um aspecto importante da língua, de acordo com Cagliari (2007) “Os modos diferentes de falar acontecem porque as línguas se transformam ao longo do tempo, assumindo peculiaridades características de grupos sociais diferentes, e os indivíduos aprendem a língua ou dialeto da comunidade em que vivem” (CAGLIARI, 2007, p.81).
Portanto a língua sofre influência da região geográfica, do tempo, do gênero, da faixa etária, do nível de instrução e das condições socioeconômicas.
É justamente por possuir tantas variáveis que não existe uma língua certa e outra errada. O que realmente existe são maneiras diferentes de se falar uma língua.
De acordo com Cagliari (2007) “A língua portuguesa, como qualquer outra língua, tem o certo e o errado somente em relação à sua estrutura. Com relação a seu uso pelas comunidades falantes, não existe o certo e o errado linguisticamente, mas o diferente” (CAGLIARI, 2007, p.35). 
O que se percebe é que a escola tem um apego muito forte às formas ortográficas, se preocupa muito em ensinar às crianças a escrever corretamente.
Para Cagliari (2007) o ensino do português é orientado quase que exclusivamente para a escrita, sendo sua aparência um dos aspectos mais importantes.
Durante o processo de alfabetização não se explica para as crianças que existe uma infinidade de formas gráficas, podendo-se escrever uma mesma letra de diferentes maneiras e isso acaba gerando uma grande confusão na cabeça delas.
Cagliari (2007) nos alerta para o fato de muitas escolas utilizarem métodos de alfabetização que ensinam a escrever pela escrita cursiva, o que representa uma grande dificuldade para as crianças. A escrita cursiva segundo Cagliari (2007), além de ter um uso muito particular, “é de difícil leitura e exige um domínio perfeito dos movimentos para a sua realização, o que representa um esforço muito grande por parte das crianças, que nem sequer conseguem segurar o lápis e controlá-lo com facilidade” (CAGLIARI, 2007, p.98). Ainda de acordo com esse autor a escrita de forma seria mais adequada para a fase de alfabetização por ser mais fácil de aprender e de reproduzir que a cursiva.
A criança ao ser alfabetizada precisa se sentir livre para traçar as letras da maneira como consegue, respeitando sua individualidade, sem a imposição de um modelo que deve ser seguido. Ao escrever ela deve ter um motivo, deve saber para que e para quem está escrevendo, com qual objetivo, do contrário a escrita se tornará algo mecânico, desprovido de sentido.
Ao professor cabe mostrar para seus alunos os diferentes tipos de textos, em que situação utilizamos cada um deles, como se deve escrevê-los, enfim, devem discutir com as crianças qual a função social de cada texto.
O professor deve criar situações que envolvam os alunos no ato de escrever, como por exemplo, confeccionar os convites para o dia das mães, fazer junto com as crianças um livro de receitas, criar um mural para enfeitar a sala etc. Essa seria uma boa maneira de se fazer com que as crianças se interessem mais pelo ato de escrever, pois segundo Cagliari (2007), “A maneira como a escola trata o escrever leva facilmente muitos alunos a detestar a escrita e em consequência a leitura, o que é realmente um irreparável desastre educacional” (CAGLIARI, 2007, p.102).
Na escola não se ensina aos alunos que eles falam de maneiras diferentes, de acordo com seus dialetos. Segundo Bagno (2000) “nossa escola não reconhece a existência de uma multiplicidade de variedades de português e tenta impor a norma padrão sem procurar saber em que medida ela é na prática uma ‘língua estrangeira’ para muitos alunos, senão para todos” (BAGNO, 2000, p.29).
O aluno que chega à escola falando o português não padrão que, segundo Bagno (2000)      “é a língua da grande maioria pobre e dos analfabetos do nosso povo”, será tratado como burro, incapaz de aprender, com problemas de discriminação visual e auditiva.
O que permanece implícito, encoberto nessa situação é o preconceito com relação aos diferentes modos de se falar o português, por isso quando nos referimos ao objetivo de ensinar o português, é imprescindível saber qual a posição política do professor, se ele deseja educar para manter a sociedade tal como ela é ou se pretende ser um agente transformador da mesma.
O ensino da norma padrão da nossa língua deve ter por princípio a emancipação dos indivíduos, tornando-os capazes de enxergar para além da ideologia que os domina e escraviza. Segundo Cagliari (2007) “A linguagem pressupõe, estabelece um jogo de direitos e deveres, é usada para marcar pessoas, classes sociais, reveste as pessoas de poderes e de fraquezas, de estigmas, de preconceitos” (CAGLIARI, 2007, p.40).
Esse tipo de ensino exige do professor uma postura de total compromisso com a transformação social.
Segundo Bagno (2000), o ensino do português padrão seria uma maneira de proporcionar aos alunos das classes sociais desprivilegiadas materialmente, armas com as quais pudessem lutar lado a lado com os indivíduos das classes dominantes para terem acesso aos bens culturais, econômicos, políticos.
É preciso ficar claro que quando se enfatiza que existe uma maneira “certa” e uma “errada” de se falar, o que realmente está em jogo não são as diferenças linguísticas, mas sim diferenças sociais.


Referências Bibliográficas:

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e Linguística. São Paulo, ed. Scipione, 10° edição, 2007.


BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. 8° ed. São Paulo: Contexto, 2000.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Política Cultural e o Currículo do professor



 Para que um currículo de formação de professores seja uma forma de política cultural, é preciso que o social, o cultural, o político e o econômico sejam os norteadores de análise e avaliação da escolarização contemporânea.
A educação tem por prioridade criar condições para fortalecer o poder individual e a  autoformação dos alunos, para que esses se tornem sujeitos políticos, não apenas forjando uma linguagem da crítica, capaz de apontar e investigar os interesses e ideologias da sociedade dominante, mas também unir a linguagem da crítica a uma linguagem da possibilidade, que desenvolva práticas alternativas de ensino que acabem com a dominação das escolas, dentro e fora delas.
Nesse sentido, a formação do professor precisa considerar um projeto político, como uma forma de política cultural, onde os futuros docentes são intelectuais responsáveis pela criação de espaços públicos onde os alunos possam se preparar em conhecimento para lutar por um mundo mais justo e humano, um obstáculo político onde os educadores radicais precisam entender que a superação é o primeiro passo a ser tomado.
Torna-se necessário reconhecer que as escolas são instituições históricas e culturais que sempre incorporam os interesses ideológicos e políticos da classe dominante ao mesmo tempo em que não exercem formas de regulação política e moral diretamente relacionadas ao poder, onde a linguagem interage com o poder, funcionando como veículo, onde por meio do qual, professor e aluno definem, mediatizam e compreendem a relação que estabelecem uns com os outros e com a sociedade.
É preciso defender a construção de uma pedagogia de política cultural em torno de uma linguagem criticamente afirmativa onde os futuros docentes podem compreender a necessidade de perceberem o discurso como uma forma de produção cultural, que organiza e legítima modos específicos de nomear, organizar e experienciar a realidade social.


Referencias Bibliográfica


GIROUX, Henry A. e MCLAREN, Peter. Formação do Professor como uma Contra-esfera pública: A Pedagogia radical como uma forma de política cultural. In: MOREIRA, Antônio Flávio e SILVA, Tomaz Tadeu (orgs.). Currículo, Cultura e Sociedade. 11ª Ed. São Paulo: Cortez, 2009, 125-154 p.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Simples de Coração: Humberto Gessinger

Certa vez ouvi de um compositor a seguinte frase: “Nós escrevemos as músicas, porém, os que nos ouvem tornam-se coautores, pois utilizam a música para expressar seus sentimentos”.  É exatamente assim! E posso dizer com propriedade que sou coautora de diversas músicas J

A música da vez é do cantor Humberto Gessinger fundador da banda Engenheiros do Hawaii (a preferida do momento), sendo a terceira faixa do álbum também intitulada Simples de Coração, de 1995.

Um pouco sobre o músico:
Humberto Gessinger

Humberto Gessinger (Alma e a voz dos Engenheiros) nascido em 24 de dezembro de 1963, conhecido por suas músicas certeiras e por ser um músico polivalente no palco, toca vários instrumentos (mas sua paixão é o baixo) e autor de 5 livros: Meu Pequeno Gremista de 2008;  Pra Ser Sincero - 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema de 2009; Mapas do Acaso - 45 Variações Sobre Um Mesmo Tema de 2011; Agenda 2012 - 366 Variações Sobre Um Mesmo Tema de 2011 e o mais recente Nas Entrelinhas do Horizonte de 2012. Neste último livro ele se descreve:

“Quem sabe que sou ‘Humberto Gessinger, 48’, sabe que nasci em 1963. Que fui adolescente nos anos 70. Que, se não me embotoquei ou plastifiquei, tenho rugas. Que, se não estou careca nem pinto os cabelos, tenho muitos grisalhos. Que, quando surgiram os primeiros computadores pessoais, eu já tinha folheado muitos livros. Há muita informação neste ‘48’. Dá pra saber a que correntes musicais eu fui exposto (e em que fases da vida). Dá pra saber que times vi dominar campeonatos ou sucumbir. Se o assunto for tênis, dá pra saber que vi Borg com olhos de menino. E que chamei Nadal de menino...”

Atualmente, Gessinger segue em carreira solo com a turnê “Insular”, título esse que lhe cai muito bem (e a mim).

Voltemos a falar do álbum e música Simples de Coração!
Simples de Coração, 1995


Na capa, foi utilizada a imagem do Sagrado Coração de Jesus, considerado o mais simples dos homens. Lembrando que além de simplicidade, Jesus também é divino o que torna a música e todo o trabalho deste álbum formidável e profundamente doce. Uma grande sacada, pois ao falar da simplicidade que Jesus carregava em seu coração (o que foi retratado na imagem da capa), ele retrata em sua música uma pessoa apaixonada, que deseja viver a simplicidade da vida e do amor (Eu sei, eu sei. A palavra ‘simplicidade’ apareceu muitas vezes neste parágrafo, mas foi proposital. Fiquem tranquilos e sejam simples).

Abaixo coloco a letra da música e alguns comentários.


SIMPLES DE CORAÇÃO


Volta pra casa,
Me traz na bagagem,
Tua viagem sou eu.
Novas paisagens,
Destino, passagem,
Tua tatuagem sou eu.
Voltar para alguém ou para uma situação requer simplicidade e muita humildade, principalmente se ambas as alternativas que dei causaram algum constrangimento e dor. Nestes casos voltar e retomar ou até mesmo concertar uma má impressão, não é uma tarefa muito confortável e pra muitos, é mais fácil esquecer e seguir em frente.

Casa vazia, luzes acesas
(só pra dar a impressão)
Cores e vozes, conversas animadas
(é só a televisão)
Geralmente, o silêncio da despedida pode incomodar, mas pode também nos oferecer a oportunidade de repensar aquilo que outrora não era benéfico aos agentes da situação. O verdadeiro incomodo deste pseudossilêncio seria a tentativa de demonstrar certa ‘alegria’ e conformidade aos demais. É interessante quando ele diz "só pra dar a impressão", me vem a memória inúmeras vezes que sorri para não mostrar fraqueza ou minha tristeza (e ainda faço isso). E o mais legal (se é que posso dizer que é), que não sou a única pessoa que age assim e posso encontrar em cada esquina alguém que sorri "só pra dar a impressão".

Já perdemos muito tempo
Brincando de perfeição
Esquecemos o que somos:
Simples de coração
Perfeição é uma palavra que não se encaixa no meu cotidiano, apesar de constantemente buscá-la. Não me sinto perfeita (ainda bem, pois seria chato demais viver), mas sinto uma enorme necessidade em ser. Espero que eu não seja a única pessoa deste planeta que age assim.

Volta voando
(vinda do alto),
Derrete o chumbo do céu
Antes que eu saia
Pela tangente
No giro do carrossel.

A ideia de voltar voando já nos remete um ar angelical e sagrado, levando em consideração que o sagrado tem o poder de amolecer corações até então endurecidos gerando o que talvez muitos de nós já perdemos: a maleabilidade. É isso que percebemos nessa estrofe "volta voando... derrete o chumbo do céu".


Falta uma volta
(ponteiros parados):
Tudo dança em torno de ti
Volta voando,
Fim da viagem:
Bem vinda à vida real.

Esta estrofe é um tiro certeiro. Ser simples é viver a realidade com ela é, sem querer enfeitá-la ou dominá-la. O maior inimigo do homem é o tempo e seu instrumento, o relógio. A vida passa com tanta rapidez e quando paramos pra perceber o tempo que nos resta é pouco, por isso viver a realidade dos dias ao invés de doce ilusão de um futuro promissor é ainda a melhor saída.

Deixo o som dessa música, que faz parte das minhas preferidas!


Referência Bibliográfica

GESSINGER, Humberto. Nas entrelinhas do horizonte. Caxias do Sul, RS: Belas-Letras, 2012.