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sábado, 30 de novembro de 2013

Educação e Cultura na ótica de Nietzsche

Baseado no livro: Escritos sobre Educação

Não é novidade para ninguém (pelo menos aos que me conhecem) o quanto admiro os escritos de Nietzsche. Percorrendo as apostilas que tenho do meu primeiro ano de graduação encontrei fragmentos do livro Escritos sobre Educação, escrito por ele e algumas anotações que fiz sobre a cultura e educação na visão de Nietzsche. Resolvi então juntar essas pequenas anotações e formar um texto (simples), mas que considero de grande valia para nossa reflexão. Tudo o que Nietzsche escreveu considero muito complexo e ainda desejo me aprofundar em sua teoria e bibliografias.

(***)

Segundo Nietzsche (1873) a cultura moderna constitui-se como negação da verdadeira cultura¹, em primeiro lugar por instituir-se um tempo acelerado e agitado, oposto a qualquer forma de tranquilidade. Não existe cultura sem um projeto educativo, nem educação sem uma cultura que o apóie. Educação e cultura são inseparáveis. Não há como falar dos meios e métodos educacionais, sem provar que sua cultura já é um presente e que se estenderá como influência sobre a escola e as instituições educacionais. Pelo fato de apoiar-se na natureza, a cultura prevalecerá e os métodos educacionais modernos estão fundamentados no caráter do não-natural, o que é uma fraqueza do nosso tempo.

Existem duas correntes ligadas nos seus resultados, fundamentadas a princípio em bases totalmente diferentes: a tendência de estender tanto quanto possível a cultura, levando a cultura cada vez mais longe; e a tendência de reduzi-la e enfraquecê-la, exigindo dela que abandone sua pretensão por soberania, submetendo-se a condição de serva a outra forma de vida, sendo “fiéis às pequenas coisas”. Essas duas tendências – à extensão e à redução – são tão contrárias aos desígnios da natureza, quanto à concentração da cultura em um pequeno número, é uma lei necessária da natureza.

O que Nietzsche censura ao afirmar que “A cultura não é serva do ganha pão e da necessidade”  é o fato de o gymnasium (as modalidades do ensino secundário) e a universidade terem se voltado para a profissionalizar e, apesar disso, continuarem a acreditar que são lugares destinados à cultura, quando na verdade não s distinguem muito da escola técnica em seus objetivos.

Para ele, o esquema do ensino foi tão bem montado pelo Estado que não permite ao professor sofrer com a falta do que dizer, pois nem o professor nem o aluno, pensam por si mesmos. Precisa-se de uma cultura para a vida, e para isso, são imprescindíveis instituições de ensino que são voltadas para a cultura. Instituições criadas para educar o corpo e o espírito do indivíduo, o tornando capaz de abrigar e proteger o intelecto.
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Verdadeira cultura¹  é aquela que permite ao homem aceder ao seu próprio ser e ao ser da natureza e construir assim uma vida em que a felicidade seja possível. Esse tipo de cultura só pode ser alcançado "por muita aplicação, autodomínio, restrição a poucas coisas, por muita repetição, tenaz e fiel, do mesmo trabalho, das mesmas renúncias






Referência Bibliográfica
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm, 1844-1900. Escritos sobre Educação. Tradução, apresentação e notas de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro : Ed PUC-Rio ; São Paulo : Loyola, 2003. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Do alto da sabedoria: livros que li em 2013


Este ano eu investi pesado em leitura. Nunca li tanto quanto nesse ano e me sinto muito realizada por isso, pois não apenas a oralidade foi agraciada por essa atitude, mas principalmente a escrita e o blog é um bom exemplo disso. Olhando os primeiros textos escritos por mim até o último percebo visivelmente um aperfeiçoamento que pude levar até mesmo para a universidade e para o trabalho.

Sendo assim, o post de hoje será sobre os livros que li. Espero que gostem das indicações. Cada livro é único e foram imprescindíveis na minha formação pessoal e profissional. Entre eles: filosóficos, pedagógicos, literatura estrangeira e nacional, religiosos.


(***)

Anticristo – Friedrich Nietzsche
Assim falava Zaratustra – Friedrich Nietzsche
V de Vingança – David Lloyd
O médico e o monstro – Robert Louis Stevenson
Gen Pés descalços (Do vol 1 ao 5)-  Keiji Nakazawa
Nas entrelinhas do horizonte – Humberto Gessinger
O professor e o combate a alienação imposta – Ezequiel da Silva
O discurso do amor rasgado – William Sharkspeare
Dom Quixote (vol. 1) – Miguel de Cervantes
O nascimento da tragédia – Friedrick Nietzsche
O apanhador no campo de centeio – Salinger
Genealogia da moral – Friedrich Nietzsche
De tramas e fios – Marisa Trench de Oliveira Fonterrada
As cinco pessoas que você encontra no céu – Micht Albom
Mergulhando no Espírito – Eber Rodrigues
O Descanço de Deus – Eber Rodrigues
Escola e Educação Musical – Rita Fucci-Amato
Tosco – Gilberto Mattje
Professores de Música – Christiane Denardi
O Filho eterno – Cristovão Tezza
Seis segundos de atenção - Humberto Gessinger
Christine – Stephen King (ainda estou lendo)

P.S: Alguns livros comecei a ler e não consegui terminar por motivos alheios a minha vontade:

Quando Nietsche chorou – Irvin D. Yalom
As crônicas de Nárnia – Clive StaplesLewis

Outros livros li apenas um ou outro capítulo para complementar uma linha de pesquisa, por isso nem vou citá-los. Existem muitos livros que entraram na minha lista de “Espera” e que provavelmente no próximo ano serão lidos.

Termino reafirmando o prazer que sinto com o silêncio da palavra escrita. Gosto do silêncio que as palavras provocam em mim! Como diria Gessinger  “E só uma paixão insana pela palavra escrita levaria alguém a querer ficar quieto num texto”. 

Desejo pro próximo ano, mais leitura pra todos nós!

Com um caso de amor muito sério com este livro <3


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Música e Literatura: interação que possibilita a alfabetização

Para não perder o costume quero voltar a falar no blog sobre Educação Musical, mas desta vez utilizando a música integrada com outras disciplinas.

Segundo Snyders (1992, p. 135) apud Fucci-Amato (2012):

O ensino da música pode dar um impulso exemplar à interdisciplinaridade, fazendo vibrar o belo em áreas escolares cada vez mais extensas e que (...) para alguns alunos é a partir da beleza da música, da alegria proporcionada pela beleza da música, tão frequentemente presente em suas vidas de uma outra forma, que  chegarão a sentir a beleza na literatura, o misto de beleza e verdade existente na matemática, o misto de beleza e eficácia que há nas ciências e nas técnicas.

Diante dessa afirmação, compreendo que a utilização da música no processo de aprendizagem em outras áreas do conhecimento se torna necessário, pois é através das artes que o sujeito pode se encontrar por completo, corpo – alma – espírito. Este momento, principalmente para a criança, é extremamente importante, pois desperta nela equilíbrio na construção do próprio conhecimento.

Não estou defendendo que a música deve ser utilizada como disciplina interdisciplinar apenas, ela é uma área do conhecimento e como tal, deve ser tratada com o mesmo grau de importância que as demais disciplinas julgadas importantes, são.

 O que percebemos no contexto escolar é que a música tem aparecido no discurso de alguns educadores como recurso para alcançar as crianças, deixá-las mais tranquilas, canalizar suas energias, ou desenvolver a criatividade e imaginação (Barradas 2008), mas a utilização da música e consequentemente seu ensino, vai muito além. 

O papel da educação musical integrada a outras disciplinas é o de formar bons ouvintes, capazes de aprender criticamente e apreciar profundamente o variado universo musical, e o de propiciar um impulso cognitivo inicial (Fucci-Amato, 2012). É através dessa vivência igualmente integral e orientada das diversas matérias e dos distintos campos da arte e do conhecimento, que a criança se constrói enquanto ser.

Estudos apontam que alguns dos principais elementos da música – timbre, tempo, pausa, tom – são fundamentais para que as crianças desenvolvam habilidades de leitura, interpretação de texto e comunicação (Kraus, 2013).

É válido lembrar que, literatura infantil também é arte e deve ser encarada como tal. Tentar desconstruir uma história infantil em sílabas, pronomes, adjetivos para então alfabetizar a criança é desintegrar a arte na sua essência, que nada mais é para apreciação.



Referências Bibliográficas:

BARRADAS, F. C. A Historicidade da canção e a aplicação pedagógica, p. 79-94, abr./jun. 2008. Akrópólis: Revista de Ciências Humanas da Universidade Paranaense. Umuarama, 1997.

FUCCI-AMATO, Rita. Escola e educação musical: (Des)caminhos históricos e horizontes. Campinas, SP: Papirus, 2012. (Coleção Papirus Educação

http://porvir.org/porpensar/ensino-de-musica-melhora-leitura-atencao-de-criancas/20131030 Acessado às 15:04 de 12/11/2013





sábado, 9 de novembro de 2013

Gen Pés Descalços e as Bombas Nucleares

Hoje o texto foi escrito por Daniel Neves (maninho lindo). Como sempre, muito bem escrito. Texto sensacional, além do mangá que é incrível (na minha humilde opinião). Espero que gostem. 
Sem mais delongas, ótima leitura!

(***)

Sempre que me lembro de mangás ou HQs, especialmente a que será comentada hoje, me lembro de umas palavras de Art Spiegelman que li certa vez:

“Os quadrinhos são um meio de expressão de conteúdo muito concentrado, que transmite informações em poucas palavras e imagens-código simplificadas. Parece-me que é o meio pelo qual o cérebro humano formula pensamentos e lembranças. Pensamos em desenhos. Os quadrinhos têm demonstrado sua habilidade em contar histórias de aventura e ação ou humor. Mas a pequena escala de imagens e a franqueza desse meio, que tem algo em comum com a escrita, permitem aos quadrinhos um tipo de intimidade que também os torna surpreendentemente adequados à autobiografia”.

Essa citação de Spiegelman encontrei no Prefácio de Gen Pés Descalços Volume 1, mangá escrito por Keiji Nakazawa. O que essa história tem a ver com a citação acima?Gen, na verdade, se trata de uma história autobiográfica com leve tom ficcional baseado na própria experiência de vida de Keiji Nakazawa. E em que ocasião especificamente se trata? Segunda Guerra Mundial e o lançamento das bombas atômicas sobre o solo japonês ao final da guerra.




Capa das novas edições que estão sendo lançadas pela editora Conrad



Se trata ao todo de 10 volumes escritos por Nakazawa na década de 1970. No Brasil foram publicados 4 volumes em meados de 2000 com a história bastante reduzida e agora está sendo relançada integralmente nos 10 volumes (atualmente está sendo produzido o 6º volume) na leitura oriental, isto é, da esquerda para a direita. Portanto devo informá-los que obviamente não li a história completa, mais li todos os volumes publicados até então.

O contexto que envolve esta história resumirei brevemente à todos. Estamos no Período Showa do Império Japonês. O Imperador era Hirohito, e o Japão estava em guerra contra os EUA desde o final de 1941 quando lançaram o ataque à Pearl Harbor. O Japão era um dos membros do Eixo e, portanto tinham um governo autoritarista (Hobsbawn afirma que o Japão configura uma nação autoritarista e não totalitarista como seus parceiros de guerra, Alemanha e Itália).
O Estado japonês estava mergulhado em um nacionalismo que levou à uma política expansionista em toda a Ásia. O Japão havia ocupado a Manchúria desde 1932, além de outras partes da Ásia, porém, no momento em que a história se desenvolve, 1945, o Japão estava à beira do colapso pelo esforço de guerra. O que se via no Japão era um nacionalismo cego, que perseguia todos aqueles que se opunham a guerra e todos aqueles que questionavam a sacralidade do Imperador e do solo japonês, os antipatriotas.
Não entremos em discussões sobre táticas de guerra e afins, mas a decisão de atacar os EUA foi um tiro no pé, sobretudo se levarmos em consideração que o contingente militar a disposição dos EUA e os recursos dos americanos disponíveis para a guerra era infinitamente maiores que os japoneses. Era mesmo uma questão de tempo que o Japão fosse sendo derrotado pelas forças americanas no Pacífico. Em 1945, o Japão estava totalmente arrasado, suas forças destruídas atuavam em estado precário, sem reforços ou com pouco auxílio do QG japonês. Os soldados japoneses resistiam na luta muito mais pela própria honra e do Imperador, mas também por uma crença cega na suposta superioridade japonesa e na crença que os “selvagens” americanos não poderiam ganhar do Império de Hirohito, pois este era um Deus, logo infalível. A população pagava um alto preço para que essa guerra fosse mantida. Como o Japão era um país pequeno e sem muito espaço para cultivo, boa parte da comida era usada na alimentação dos soldados no front, portanto a fome era uma realidade do civil japonês, com cotas diárias no consumo do arroz (base da alimentação japonesa) entre outros alimentos. As pessoas começaram a morrer de fome. Os que tinham condições compravam alimentos no mercado negro, porém boa parte não tinham tal condição e sobreviviam da maneira que podiam. Aqueles que não contribuíssem com o esforço de guerra, cedendo alimentos eram taxados de antipatriotas e Gen nos mostra como os antipatriotas eram tratados pela sociedade japonesa. Os que se recusassem a lutar também eram taxados de traidores. Não era permitido praguejar a guerra. Não era permitido questionar a falta de alimento. Não era permitido faltar aos treinamentos militares que eram realizados com os civis. Não era permitido não expor uma bandeira do Império em sua casa. Muita coisa não era permitida, afinal estamos falando de uma nação autoritarista.
Complementando essa primeira parte, Nakazawa nos diz sobre Gen:

“Não escrevi Gen simplesmente para denunciar a destruição causada pela bomba atômica. Eu queria retratar o processo pelo qual o povo japonês foi aprisionado num sistema imperial fascista que exaltava o imperador e instigou a nação a uma guerra total. Eu queria mostrar à próxima geração a miséria que um conflito bélico traz a um país. Eu queria que eles soubessem das atrocidades que o Japão cometeu na China e na Coréia e no resto da Ásia.(...) Na verdade não há nada mais perigoso do que a ignorância.(...) Nós não devemos deixar que Hiroshima e Nagasaki aconteçam de novo."

E nesse contexto que acontece Gen. O foco além de mostrar o envolvimento cego da nação com a guerra, era mostrar o sofrimento ao quais os japoneses passaram em Hiroshima com toda a destruição da cidade, e principalmente, o objetivo de Nakazawa era não deixar que Hiroshima fosse esquecido para que algo daquela magnitude jamais acontecesse novamente. É uma realidade pesada, densa, por vezes os olhos marejam e a tristeza bate e nós nos vemos na pele de Gen e daqueles japoneses. A imagem dos civis japoneses com a pele do corpo derretida fica gravada na memória. Nakazawa não isenta o Japão neste fato, pelo contrário, faz questão de mostrar que o expansionismo e belicismo do Império Japonês foi responsável direto pela desgraça que decaiu sobre a vida daquelas pessoas. Também não isenta os EUA. Porque jogar uma arma tão mortal sobre civis de um Império praticamente derrotado? Pra poupar a vida dos soldados americanos? Talvez. Para mostrar seu poderio à nova potência que estava emergindo, a URSS? E outra questão fica no ar: as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki foram um teste científico? Fizeram os japoneses de cobaias? A minha opinião pessoal é sim. E Gen no mostra como os americanos, após a ocupação do Japão enviam centenas de cientistas para estudar os efeitos das bombas na população japonesa, lembrando que em Hiroshima a bomba lançada era de Urânio e a bomba de Nagasaki era de Plutônio. Podemos pensar que isso fora um teste sobre os diferentes efeitos que bombas de diferentes elementos teriam sobre as pessoas e o espaço. A maneira como os cientistas americanos agiam no Japão, subornando os médicos para que estes incentivassem as pessoas que sofriam os sintomas da pikadón (maneira como os japoneses chamavam a bomba) a procurar os centros de pesquisas americanos instalados lá com a falsa esperança de serem tratadas, quando na verdade, elas estavam sendo usadas como cobaias.

Fragmento de Gen mostrando um sobrevivente com a pele do corpo derretida pelo calor




Em cinco volumes muita coisa é mostrada. Pra quem não conhece o lado japonês na guerra, esta é uma ótima maneira de conhecer. O clima antes da bomba e o nacionalismo da sociedade, o preconceito com os “pacifistas” e os “estrangeiros”, os efeitos destrutivos da bomba, durante e após o ataque, o sofrimento e a morte da maneira mais nua e crua possível (ATENÇÃO PARA SPOILER: Gen assiste seu pai, irmã e irmão morrerem queimados após ficarem presos nos escombros de sua casa e logo após, sua mãe grávida entra em trabalho de parto e ele, um garoto de seis anos, realiza o parto de sua irmã que morreria tempos depois pela falta de alimento), a procura por comida, o preconceito com os sobreviventes, a descaso do governo japonês com os sobreviventes, a reconstrução, o mercado negro e a máfia, a ocupação americana etc. E o que torna esse relato mais importante é que Keiji Nakazawa, passou, viu ou ouviu relatos de quem sobreviveu, ou seja, boa parte do que acontece no mangá aconteceu de fato com ele (o destino de sua família é da maneira como relata o mangá).





Na década de 1980, o mangá virou animação que dá uma perfeita noção do sofrimento que Gen (ou Nakazawa) passou (SPOILER NOVAMENTE: a cena em que Shinji morre queimado é perturbante e de cortar o coração); recomendo muito que leiam o mangá e aliem assistindo o filme. Outros filmes que ajudam a ter uma boa percepção da guerra do ponto de vista japonês são Cartas de Iwo Jima e a animação Túmulo dos Vagalumes. O primeiro mostra o exército japonês sofrendo já ao final da guerra com a falta de armamentos e recursos e um pouco da honra japonesa aplicada na guerra (seja cometendo o harakiri – suicídio – seja lutando até a última gota de sangue), e o segundo nos mostra um casal de irmãos tentando sobreviver nas ruas de Tóquio em 1945. Túmulo dos Vagalumes, principalmente é extremamente triste. Impossível assistir sem comover-se.

Cena da animação Hadashi no Gen mostrando uma pessoa morta pelo calor da bomba




Na ordem: Gen, Ryura (garoto adotado pela mãe de Gen), mãe de Gen (segurando a irmã recém nascida de Gen)



Por fim gostaria de encerrar como mais uma recomendação: Clarão, Chuva Negra, documentário da HBO sobre as bombas em Hiroshima e Nagasaki. Com relatos de sobreviventes, e muitas imagens da época é realmente chocante, pois nos dá a dimensão real da tragédia. As doenças e o preconceito na vida dos sobreviventes foi (e ainda é) uma cruel realidade. As deformidades aos quais os sobreviventes tiveram em seus corpos é terrivelmente chocante, além da exclusão social aos quais esses sobreviventes sofrerão, inclusive muitos jamais se casaram porque as famílias simplesmente não aceitavam um sobrevivente como pretendente. Mais outros pontos importantes do documentário são dois momentos que ficaram muito bem guardados na minha mente: primeiro, vários estudantes japoneses são indagados sobre o que aconteceu no dia 6 e 9 de agosto de 1945. Ninguém sabia. O que nos leva ao segundo momento que me impactou. A frase de uma sobrevivente: “a impressão que eu tenho é que o governo e a sociedade japonesa estão apenas esperando que os sobreviventes morram para que esqueçam completamente o que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki”. Justamente o que Nakazawa, um dos entrevistados no documentário, procurou com sua obra evitar. É vital que essa história jamais seja esquecida. Os riscos e o sofrimento que armas nucleares causam são incalculáveis para quem não sofre/sofreu na pele as consequências deste. Não podemos deixar cair no esquecimento o sofrimento destas pessoas que nada tinham com essa guerra. Não devemos deixar Gen ser esquecido. Que os dias 06 e 09 de agosto de 1945 sejam lembrados para sempre para que nunca mais se repitam. Que Gen sirva de lição.

Imagem panorâmica de Hiroshima totalmente destruída pela bomba





P.S.: fica aí a homenagem para Keiji Nakazawa que escreveu (na verdade viveu) essa formidável história e que, infelizmente faleceu em dezembro de 2012, devido à um câncer, uma das muitas consequências da exposição à radiação.



Keiji Nakazawa



Pra finalizar, deixarei o link de alguns vídeos pra quem se interessar:

Animação de Gen Pés Descalços:




Documentário: White Light/Black Rain - Clarão/Chuva Negra



É isso aí pessoal! Espero que gostem! Abraços a todos!

Daniel Neves, graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás e o mais importante: meu irmão =)

Referência Bibliográfica:

NAKAZAWA, Keiji. Gen Pés Descalços. Ed Conrad

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sem pressa e pra sempre


O fim do ano se aproxima e mais uma vez planos e projetos permeiam meus pensamentos, porém dessa vez algo mudou: não tenho plano algum.

Durante muito tempo tive por meta os mesmos planos e adivinha? Não deram certo! Não me sinto frustrada por isso, percebo apenas que é hora de mudar a estratégia para consegui-los e pra ser sincera eu não sei o que fazer.

Paradoxal? Não, não é! Apenas não sei o que fazer e isso é um alívio. Pela primeira vez, após tantos anos, não sei o que planejar para o próximo ano (emprego, amizades, bens materiais, um amor) e tenho a oportunidade de andar por novos caminhos e simplesmente esquecer as regras que eu própria estabeleci pra mim.

Frio na barriga? Inevitável!

Paz de espírito? Fundamental!

E assim, sigo em frente como o vento que ninguém sabe de onde vem e nem pra onde vai.

Sobre as regras, eu simplesmente não as quero mais. O julgo que eu carregava por estar perto dos 30 anos e ainda não ter conquistado certas coisas, não está mais sobre meus ombros. Anulei o calendário, o relógio... O tempo!

Viver um dia de cada vez foi o que de melhor aprendi neste ano. Tentar não me apavorar pelo que não foi, pelo que não veio, pelo que ficou, foi o que me deu força pra enfrentar todos os dias, as minhas lutas.

E neste momento onde não consigo planejar nada, o silêncio (velho amigo) me faz companhia. O silêncio pode pesar uma tonelada, mas também pode ter a leveza de uma pena. Depende mais de você do que do outro. Sentir com inteligência, pensar com emoção.

Um dia de cada vez!

Sem pressa e pra sempre!






sábado, 2 de novembro de 2013

Maus: a história de um sobrevivente

Boa tarde,

O post de hoje é muito especial, pois é um texto escrito por meu irmão Daniel onde ele fala do livro Maus, livro que está no topo da minha lista de "livros preferidos".

Daniel Neves é formado em História pela Universidade Estadual de Goiás, é por causa dele que me tornei professora. Foi ele quem tanto me incentivou a ler. Admiro demais, nem posso mensurar!

Espero que gostem! Ótima leitura!

***

No prefácio de Gen Pés Descalços, mangá sobre o ataque nuclear em Hiroshima durante a Segunda Guerra, Art Spielgeman afirmou: “Os quadrinhos são um meio de expressão de conteúdo muito concentrado, que transmite informações em poucas palavras (...). Parece-me que esse é o modo pelo qual o cérebro humano formula pensamentos e lembranças. Pensamos em desenhos. Os quadrinhos têm demonstrado sua habilidade em contar história de aventuras e ação ou humor. Mas a pequena escala de imagens e a franqueza desse meio (...), permitem aos quadrinhos um tipo de intimidade que também os torna surpreendentemente adequados à autobiografia”.



Com essa citação de Art Spielgemann fica evidente que o assunto será HQs, porém, será uma em particular e não será Gen Pés Descalços (ao qual eu ainda estou lendo), e sim, a obra mais conhecida de Art, Maus: A História de Um Sobrevivente, quadrinho que aborda o holocausto judaico durante a Segunda Guerra. Maus é uma história biográfica, porém não de Art (que nasceu em 1948 em Estocolmo), mas de seu pai Vladek Spiegelman. A história não é novidade pra ninguém: o sofrimento e perseguição que foi imposta à toda comunidade judaica por onde os Nazistas pisavam, porém há algo em Maus que o torna único, sinceramente não sei o que apontar, talvez porque seja uma história contada pelo filho de todo o sofrimento de seu pai. Aproveitando o gancho vi um comentário na internet que achei MUITO pertinente: “ Ler o relato de um filho sobre a vida miseravelmente sofrida de seu pai e ainda assim não usar eufemismos para esconder seus defeitos foi de uma sensibilidade extraordinária, a despeito de, a princípio, parecer frieza. Impossível ler sem chorar, mesmo que sem derramar lágrimas”.

O que mais impressiona em Maus é isso: Art retrata Vladek em todo sentimento, porém não esconde em momento nenhum seus defeitos, na verdade ele o faz questão de mostrá-los, é fantástico isso. Vladek encarna o verdadeiro estereótipo do judeu (o próprio Art menciona isso): sovina, rabugento, sempre querendo tirar vantagem de alguma coisa, negociante nato etc. Talvez essas características tenham feito Vladek ter sobrevivido aos campos de concentração, além da sua inteligência. Nos momentos de maiores dificuldades, Vladek de alguma forma conseguia comida ou melhor tratamento ou uma maneira de aliviar o seu sofrimento. Claro que Vladek não era somente defeitos, pois durante todo o livro, Vladek me surpreendeu com ações generosas, ajudando amigos, parentes e sobretudo sua esposa, Anja. Talvez um dos momentos que mais me tocaram foi quando Vladek consegue alguma ajuda em Auschiwtz e além de seu próprio bem, ele pensa em seu primo (eu acho que era primo, deu branco agora) Mandelbaum.



O mais interessante de tudo é que mesmo Vladek ter sido vítima de um dos piores massacres da história da humanidade baseado no mais infundado dos racismos, Vladek não deixa de ser racistas e pra isso volto a um comentário que eu encontrei na internet: “A grande “sacada” de Maus está, no meu ponto de vista, no fato de que todos são ratos. Todos são vilões, todos são vítimas. Nazistas, judeus, poloneses que só queriam que aquilo terminasse, todos eram ratos acuados, desesperados pela sobrevivência, apegados em migalhas de esperança. Enquanto o maior de todos eles estava a salvo dos mísseis, em perigo ante seus próprios fantasmas.

Terminada a Guerra, resta a pergunta: o Holocausto também terminou? Judeus que sofreram atrocidades por conta da raça são racistas, alemães que viram a queda de sua nação ainda se consideram superiores, americanos que foram tidos como os heróis da liberdade são os maiores escravocratas dos tempos atuais. Judeus, negros, homossexuais, deficientes físicos e mentais e toda e qualquer diferença AINDA HOJE são perseguidos, julgados, condenados, mandados para os fornos”.


Acho que aí fica a maior mensagem de Spielgeman: o ser humano mesmo passando pelo pior dos horrores continua sendo egoísta, mesquinho, racista, etc. Enfim, acho que se eu continuar a falar começarei a spoilar e isso não seria muito bom pra quem nunca leu o livro. Fica aí mais essa dica pra quem curte uma boa leitura.

Irmão mais lindo do mundo <3

Referência Bibliográfica

SPIEGELMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. São Paulo: Companhia da Letras, 2009.