Não é novidade para ninguém (pelo
menos aos que me conhecem) o quanto admiro os escritos de Nietzsche.
Percorrendo as apostilas que tenho do meu primeiro ano de graduação encontrei fragmentos
do livro Escritos sobre Educação, escrito
por ele e algumas anotações que fiz sobre a cultura e educação na visão de Nietzsche.
Resolvi então juntar essas pequenas anotações e formar um texto (simples), mas
que considero de grande valia para nossa reflexão. Tudo o que Nietzsche
escreveu considero muito complexo e ainda desejo me aprofundar em sua teoria e bibliografias.
(***)
Segundo Nietzsche (1873) a
cultura moderna constitui-se como negação da verdadeira cultura¹, em primeiro
lugar por instituir-se um tempo acelerado e agitado, oposto a qualquer forma de
tranquilidade. Não existe cultura sem um projeto educativo, nem educação sem
uma cultura que o apóie. Educação e cultura são inseparáveis. Não há como falar
dos meios e métodos educacionais, sem provar que sua cultura já é um presente e
que se estenderá como influência sobre a escola e as instituições educacionais.
Pelo fato de apoiar-se na natureza, a cultura prevalecerá e os métodos educacionais
modernos estão fundamentados no caráter do não-natural, o que é uma fraqueza do
nosso tempo.
Existem duas correntes ligadas
nos seus resultados, fundamentadas a princípio em bases totalmente
diferentes: a tendência de estender tanto
quanto possível a cultura, levando a cultura cada vez mais longe; e a tendência de reduzi-la e enfraquecê-la, exigindo
dela que abandone sua pretensão por soberania, submetendo-se a condição de
serva a outra forma de vida, sendo “fiéis às pequenas coisas”. Essas duas
tendências – à extensão e à redução –
são tão contrárias aos desígnios da natureza, quanto à concentração da cultura
em um pequeno número, é uma lei necessária da natureza.
O que Nietzsche censura ao
afirmar que “A cultura não é serva do
ganha pão e da necessidade” é o fato
de o gymnasium (as modalidades do ensino secundário)
e a universidade terem se voltado para a profissionalizar e, apesar disso,
continuarem a acreditar que são lugares destinados à cultura, quando na verdade
não s distinguem muito da escola técnica em seus objetivos.
Para ele, o esquema do ensino foi
tão bem montado pelo Estado que não permite ao professor sofrer com a falta do
que dizer, pois nem o professor nem o aluno, pensam por si mesmos. Precisa-se
de uma cultura para a vida, e para isso, são imprescindíveis instituições de
ensino que são voltadas para a cultura. Instituições criadas para educar o
corpo e o espírito do indivíduo, o tornando capaz de abrigar e proteger o
intelecto.
Verdadeira
cultura¹ é aquela que permite ao homem aceder ao seu próprio ser e ao
ser da natureza e construir assim uma vida em que a felicidade seja possível.
Esse tipo de cultura só pode ser alcançado "por muita aplicação, autodomínio,
restrição a poucas coisas, por muita repetição, tenaz e fiel, do mesmo
trabalho, das mesmas renúncias
Referência Bibliográfica
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm,
1844-1900. Escritos sobre Educação. Tradução, apresentação e notas de Noéli
Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro : Ed PUC-Rio ; São Paulo : Loyola,
2003.
Este ano eu investi pesado em
leitura. Nunca li tanto quanto nesse ano e me sinto muito realizada por isso,
pois não apenas a oralidade foi agraciada por essa atitude, mas principalmente
a escrita e o blog é um bom exemplo disso. Olhando os primeiros textos escritos
por mim até o último percebo visivelmente um aperfeiçoamento que pude levar até
mesmo para a universidade e para o trabalho.
Sendo assim, o post de hoje será sobre os livros que
li. Espero que gostem das indicações. Cada livro é único e foram imprescindíveis
na minha formação pessoal e profissional. Entre eles: filosóficos, pedagógicos, literatura estrangeira e nacional, religiosos.
(***)
Anticristo – Friedrich Nietzsche
Assim falava Zaratustra –
Friedrich Nietzsche
V de Vingança – David Lloyd
O médico e o monstro – Robert
Louis Stevenson
Gen Pés descalços (Do vol 1 ao 5)- Keiji Nakazawa
Nas entrelinhas do horizonte – Humberto
Gessinger
O professor e o combate a
alienação imposta – Ezequiel da Silva
O discurso do amor rasgado –
William Sharkspeare
Dom Quixote (vol. 1) – Miguel de
Cervantes
O nascimento da tragédia –
Friedrick Nietzsche
O apanhador no campo de centeio –
Salinger
Genealogia da moral – Friedrich Nietzsche
De tramas e fios – Marisa Trench de Oliveira Fonterrada
As cinco pessoas que você
encontra no céu – Micht Albom
Mergulhando no Espírito – Eber Rodrigues
O Descanço de Deus – Eber Rodrigues
Escola e Educação Musical – Rita
Fucci-Amato
Tosco – Gilberto Mattje
Professores de Música – Christiane
Denardi
O Filho eterno – Cristovão Tezza
Seis segundos de atenção - Humberto Gessinger
Christine – Stephen King (ainda estou lendo)
P.S: Alguns livros comecei a ler
e não consegui terminar por motivos alheios a minha vontade:
Quando Nietsche chorou – Irvin D.
Yalom
As crônicas de Nárnia – Clive
StaplesLewis
Outros livros li apenas um ou
outro capítulo para complementar uma linha de pesquisa, por isso nem vou
citá-los. Existem muitos livros que entraram na minha lista de “Espera” e que
provavelmente no próximo ano serão lidos.
Termino reafirmando o prazer que sinto
com o silêncio da palavra escrita.
Gosto do silêncio que as palavras provocam em mim! Como diria Gessinger “E só uma paixão insana pela
palavra escrita levaria alguém a querer ficar quieto num texto”.
Desejo pro próximo ano, mais leitura pra todos nós!
Para não perder o costume quero
voltar a falar no blog sobre Educação Musical, mas desta vez utilizando
a música integrada com outras disciplinas.
Segundo Snyders (1992, p. 135) apud Fucci-Amato (2012):
O ensino da música pode dar um
impulso exemplar à interdisciplinaridade, fazendo vibrar o belo em áreas
escolares cada vez mais extensas e que (...) para alguns alunos é a partir da
beleza da música, da alegria proporcionada pela beleza da música, tão
frequentemente presente em suas vidas de uma outra forma, que chegarão a sentir a beleza na literatura, o
misto de beleza e verdade existente na matemática, o misto de beleza e eficácia
que há nas ciências e nas técnicas.
Diante dessa afirmação,
compreendo que a utilização da música no processo de aprendizagem em outras
áreas do conhecimento se torna necessário, pois é através das artes que o
sujeito pode se encontrar por completo, corpo – alma – espírito. Este momento,
principalmente para a criança, é extremamente importante, pois desperta nela
equilíbrio na construção do próprio conhecimento.
Não estou defendendo que a música
deve ser utilizada como disciplina interdisciplinar apenas, ela é uma área do
conhecimento e como tal, deve ser tratada com o mesmo grau de importância que as demais
disciplinas julgadas importantes, são.
O que percebemos no contexto escolar é que a
música tem aparecido no discurso de alguns educadores como recurso para
alcançar as crianças, deixá-las mais tranquilas, canalizar suas energias, ou
desenvolver a criatividade e imaginação (Barradas 2008), mas a utilização da
música e consequentemente seu ensino, vai muito além.
O papel da educação musical
integrada a outras disciplinas é o de formar bons ouvintes, capazes de aprender
criticamente e apreciar profundamente o variado universo musical, e o de
propiciar um impulso cognitivo inicial (Fucci-Amato, 2012). É através dessa
vivência igualmente integral e orientada das diversas matérias e dos distintos
campos da arte e do conhecimento, que a criança se constrói enquanto ser.
Estudos apontam que alguns dos
principais elementos da música – timbre, tempo, pausa, tom – são fundamentais para
que as crianças desenvolvam habilidades de leitura, interpretação de texto e
comunicação (Kraus, 2013).
É válido lembrar que, literatura
infantil também é arte e deve ser encarada como tal. Tentar desconstruir uma
história infantil em sílabas, pronomes, adjetivos para então alfabetizar a
criança é desintegrar a arte na sua essência, que nada mais é para apreciação.
Referências Bibliográficas:
BARRADAS, F. C. A Historicidade da canção e a aplicação
pedagógica, p. 79-94, abr./jun. 2008. Akrópólis: Revista de Ciências
Humanas da Universidade Paranaense. Umuarama, 1997.
FUCCI-AMATO,
Rita. Escola e educação musical:
(Des)caminhos históricos e horizontes. Campinas, SP: Papirus, 2012. (Coleção
Papirus Educação
http://porvir.org/porpensar/ensino-de-musica-melhora-leitura-atencao-de-criancas/20131030
Acessado às 15:04 de 12/11/2013
Hoje o texto foi escrito por Daniel Neves (maninho lindo). Como sempre, muito bem escrito. Texto sensacional, além do mangá que é incrível (na minha humilde opinião). Espero que gostem.
Sem mais delongas, ótima leitura!
(***)
Sempre que me lembro de mangás ou HQs, especialmente a que
será comentada hoje, me lembro de umas palavras de Art Spiegelman que li certa
vez:
“Os quadrinhos são um meio de expressão de conteúdo muito
concentrado, que transmite informações em poucas palavras e imagens-código
simplificadas. Parece-me que é o meio pelo qual o cérebro humano formula
pensamentos e lembranças. Pensamos em desenhos. Os quadrinhos têm demonstrado
sua habilidade em contar histórias de aventura e ação ou humor. Mas a pequena
escala de imagens e a franqueza desse meio, que tem algo em comum com a
escrita, permitem aos quadrinhos um tipo de intimidade que também os torna surpreendentemente
adequados à autobiografia”.
Essa citação de Spiegelman encontrei no Prefácio de Gen Pés
Descalços Volume 1, mangá escrito por Keiji Nakazawa. O que essa história tem a
ver com a citação acima?Gen, na verdade, se trata de uma história autobiográfica
com leve tom ficcional baseado na própria experiência de vida de Keiji
Nakazawa. E em que ocasião especificamente se trata? Segunda Guerra Mundial e o
lançamento das bombas atômicas sobre o solo japonês ao final da guerra.
Capa das novas edições que estão sendo lançadas pela editora Conrad
Se trata ao todo de 10 volumes escritos por Nakazawa na
década de 1970. No Brasil foram publicados 4 volumes em meados de 2000 com a
história bastante reduzida e agora está sendo relançada integralmente nos 10
volumes (atualmente está sendo produzido o 6º volume) na leitura oriental, isto
é, da esquerda para a direita. Portanto devo informá-los que obviamente não li
a história completa, mais li todos os volumes publicados até então.
O contexto que envolve esta história resumirei brevemente à
todos. Estamos no Período Showa do Império Japonês. O Imperador era Hirohito, e
o Japão estava em guerra contra os EUA desde o final de 1941 quando lançaram o
ataque à Pearl Harbor. O Japão era um dos membros do Eixo e, portanto tinham um
governo autoritarista (Hobsbawn afirma que o Japão configura uma nação
autoritarista e não totalitarista como seus parceiros de guerra, Alemanha e
Itália).
O Estado japonês estava mergulhado em um nacionalismo que
levou à uma política expansionista em toda a Ásia. O Japão havia ocupado a
Manchúria desde 1932, além de outras partes da Ásia, porém, no momento em que a
história se desenvolve, 1945, o Japão estava à beira do colapso pelo esforço de
guerra. O que se via no Japão era um nacionalismo cego, que perseguia todos
aqueles que se opunham a guerra e todos aqueles que questionavam a sacralidade
do Imperador e do solo japonês, os antipatriotas.
Não entremos em discussões sobre táticas de guerra e afins,
mas a decisão de atacar os EUA foi um tiro no pé, sobretudo se levarmos em
consideração que o contingente militar a disposição dos EUA e os recursos dos
americanos disponíveis para a guerra era infinitamente maiores que os
japoneses. Era mesmo uma questão de tempo que o Japão fosse sendo derrotado
pelas forças americanas no Pacífico. Em 1945, o Japão estava totalmente
arrasado, suas forças destruídas atuavam em estado precário, sem reforços ou
com pouco auxílio do QG japonês. Os soldados japoneses resistiam na luta muito
mais pela própria honra e do Imperador, mas também por uma crença cega na
suposta superioridade japonesa e na crença que os “selvagens” americanos não
poderiam ganhar do Império de Hirohito, pois este era um Deus, logo infalível.
A população pagava um alto preço para que essa guerra fosse mantida. Como o
Japão era um país pequeno e sem muito espaço para cultivo, boa parte da comida
era usada na alimentação dos soldados no front, portanto a fome era uma
realidade do civil japonês, com cotas diárias no consumo do arroz (base da
alimentação japonesa) entre outros alimentos. As pessoas começaram a morrer de
fome. Os que tinham condições compravam alimentos no mercado negro, porém boa
parte não tinham tal condição e sobreviviam da maneira que podiam. Aqueles que
não contribuíssem com o esforço de guerra, cedendo alimentos eram taxados de
antipatriotas e Gen nos mostra como os antipatriotas eram tratados pela
sociedade japonesa. Os que se recusassem a lutar também eram taxados de
traidores. Não era permitido praguejar a guerra. Não era permitido questionar a
falta de alimento. Não era permitido faltar aos treinamentos militares que eram
realizados com os civis. Não era permitido não expor uma bandeira do Império em
sua casa. Muita coisa não era permitida, afinal estamos falando de uma nação
autoritarista.
Complementando essa primeira parte, Nakazawa nos diz sobre
Gen:
“Não escrevi Gen simplesmente para denunciar a destruição
causada pela bomba atômica. Eu queria retratar o processo pelo qual o povo
japonês foi aprisionado num sistema imperial fascista que exaltava o imperador
e instigou a nação a uma guerra total. Eu queria mostrar à próxima geração a
miséria que um conflito bélico traz a um país. Eu queria que eles soubessem das
atrocidades que o Japão cometeu na China e na Coréia e no resto da Ásia.(...)
Na verdade não há nada mais perigoso do que a ignorância.(...) Nós não devemos
deixar que Hiroshima e Nagasaki aconteçam de novo."
E nesse contexto que acontece Gen. O foco além de mostrar o
envolvimento cego da nação com a guerra, era mostrar o sofrimento ao quais os
japoneses passaram em Hiroshima com toda a destruição da cidade, e
principalmente, o objetivo de Nakazawa era não deixar que Hiroshima fosse
esquecido para que algo daquela magnitude jamais acontecesse novamente. É uma
realidade pesada, densa, por vezes os olhos marejam e a tristeza bate e nós nos
vemos na pele de Gen e daqueles japoneses. A imagem dos civis japoneses com a
pele do corpo derretida fica gravada na memória. Nakazawa não isenta o Japão
neste fato, pelo contrário, faz questão de mostrar que o expansionismo e
belicismo do Império Japonês foi responsável direto pela desgraça que decaiu
sobre a vida daquelas pessoas. Também não isenta os EUA. Porque jogar uma arma
tão mortal sobre civis de um Império praticamente derrotado? Pra poupar a vida
dos soldados americanos? Talvez. Para mostrar seu poderio à nova potência que
estava emergindo, a URSS? E outra questão fica no ar: as bombas sobre Hiroshima
e Nagasaki foram um teste científico? Fizeram os japoneses de cobaias? A minha
opinião pessoal é sim. E Gen no mostra como os americanos, após a ocupação do
Japão enviam centenas de cientistas para estudar os efeitos das bombas na
população japonesa, lembrando que em Hiroshima a bomba lançada era de Urânio e
a bomba de Nagasaki era de Plutônio. Podemos pensar que isso fora um teste
sobre os diferentes efeitos que bombas de diferentes elementos teriam sobre as
pessoas e o espaço. A maneira como os cientistas americanos agiam no Japão,
subornando os médicos para que estes incentivassem as pessoas que sofriam os
sintomas da pikadón (maneira como os japoneses chamavam a bomba) a procurar os
centros de pesquisas americanos instalados lá com a falsa esperança de serem
tratadas, quando na verdade, elas estavam sendo usadas como cobaias.
Fragmento de Gen mostrando um sobrevivente com a pele do corpo derretida pelo calor
Em cinco volumes muita coisa é mostrada. Pra quem não
conhece o lado japonês na guerra, esta é uma ótima maneira de conhecer. O clima
antes da bomba e o nacionalismo da sociedade, o preconceito com os “pacifistas”
e os “estrangeiros”, os efeitos destrutivos da bomba, durante e após o ataque,
o sofrimento e a morte da maneira mais nua e crua possível (ATENÇÃO PARA
SPOILER: Gen assiste seu pai, irmã e irmão morrerem queimados após ficarem
presos nos escombros de sua casa e logo após, sua mãe grávida entra em trabalho
de parto e ele, um garoto de seis anos, realiza o parto de sua irmã que
morreria tempos depois pela falta de alimento), a procura por comida, o
preconceito com os sobreviventes, a descaso do governo japonês com os
sobreviventes, a reconstrução, o mercado negro e a máfia, a ocupação americana
etc. E o que torna esse relato mais importante é que Keiji Nakazawa, passou,
viu ou ouviu relatos de quem sobreviveu, ou seja, boa parte do que acontece no
mangá aconteceu de fato com ele (o destino de sua família é da maneira como
relata o mangá).
Na década de 1980, o mangá virou animação que dá uma
perfeita noção do sofrimento que Gen (ou Nakazawa) passou (SPOILER NOVAMENTE: a
cena em que Shinji morre queimado é perturbante e de cortar o coração);
recomendo muito que leiam o mangá e aliem assistindo o filme. Outros filmes que
ajudam a ter uma boa percepção da guerra do ponto de vista japonês são Cartas
de Iwo Jima e a animação Túmulo dos Vagalumes. O primeiro mostra o exército
japonês sofrendo já ao final da guerra com a falta de armamentos e recursos e
um pouco da honra japonesa aplicada na guerra (seja cometendo o harakiri –
suicídio – seja lutando até a última gota de sangue), e o segundo nos mostra um
casal de irmãos tentando sobreviver nas ruas de Tóquio em 1945. Túmulo dos
Vagalumes, principalmente é extremamente triste. Impossível assistir sem
comover-se.
Cena da animação Hadashi no Gen mostrando uma pessoa morta pelo calor da bomba
Na ordem: Gen, Ryura (garoto adotado pela mãe de Gen), mãe de Gen (segurando a irmã recém nascida de Gen)
Por fim gostaria de encerrar como mais uma recomendação:
Clarão, Chuva Negra, documentário da HBO sobre as bombas em Hiroshima e
Nagasaki. Com relatos de sobreviventes, e muitas imagens da época é realmente
chocante, pois nos dá a dimensão real da tragédia. As doenças e o preconceito
na vida dos sobreviventes foi (e ainda é) uma cruel realidade. As deformidades
aos quais os sobreviventes tiveram em seus corpos é terrivelmente chocante,
além da exclusão social aos quais esses sobreviventes sofrerão, inclusive
muitos jamais se casaram porque as famílias simplesmente não aceitavam um
sobrevivente como pretendente. Mais outros pontos importantes do documentário
são dois momentos que ficaram muito bem guardados na minha mente: primeiro,
vários estudantes japoneses são indagados sobre o que aconteceu no dia 6 e 9 de
agosto de 1945. Ninguém sabia. O que nos leva ao segundo momento que me
impactou. A frase de uma sobrevivente: “a impressão que eu tenho é que o
governo e a sociedade japonesa estão apenas esperando que os sobreviventes
morram para que esqueçam completamente o que aconteceu em Hiroshima e
Nagasaki”. Justamente o que Nakazawa, um dos entrevistados no documentário,
procurou com sua obra evitar. É vital que essa história jamais seja esquecida.
Os riscos e o sofrimento que armas nucleares causam são incalculáveis para quem
não sofre/sofreu na pele as consequências deste. Não podemos deixar cair no
esquecimento o sofrimento destas pessoas que nada tinham com essa guerra. Não
devemos deixar Gen ser esquecido. Que os dias 06 e 09 de agosto de 1945 sejam
lembrados para sempre para que nunca mais se repitam. Que Gen sirva de lição.
Imagem panorâmica de Hiroshima totalmente destruída pela bomba
P.S.: fica aí a homenagem para Keiji Nakazawa que escreveu
(na verdade viveu) essa formidável história e que, infelizmente faleceu em
dezembro de 2012, devido à um câncer, uma das muitas consequências da exposição
à radiação.
Keiji Nakazawa
Pra finalizar, deixarei o link de alguns vídeos pra quem se
interessar:
Animação de Gen Pés Descalços:
Documentário: White Light/Black Rain - Clarão/Chuva Negra
É isso aí pessoal! Espero que gostem! Abraços a todos!
Daniel Neves, graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás e o mais importante: meu irmão =)
O fim do ano se aproxima e mais
uma vez planos e projetos permeiam meus pensamentos, porém dessa vez algo
mudou: não tenho plano algum.
Durante muito tempo tive por meta
os mesmos planos e adivinha? Não deram certo! Não me sinto frustrada por isso,
percebo apenas que é hora de mudar a estratégia para consegui-los e pra ser
sincera eu não sei o que fazer.
Paradoxal? Não, não é! Apenas não
sei o que fazer e isso é um alívio. Pela primeira vez, após tantos anos, não
sei o que planejar para o próximo ano (emprego, amizades, bens materiais, um amor) e tenho a oportunidade de andar por novos caminhos e simplesmente
esquecer as regras que eu própria estabeleci pra mim.
Frio na barriga? Inevitável!
Paz de espírito? Fundamental!
E assim, sigo em frente como o
vento que ninguém sabe de onde vem e nem pra onde vai.
Sobre as regras, eu
simplesmente não as quero mais. O julgo que eu carregava por estar perto dos 30
anos e ainda não ter conquistado certas coisas, não está mais sobre meus ombros. Anulei o calendário, o relógio... O
tempo!
Viver um dia de cada vez foi o
que de melhor aprendi neste ano. Tentar não me apavorar pelo que não foi, pelo
que não veio, pelo que ficou, foi o que me deu força pra enfrentar todos os
dias, as minhas lutas.
E neste momento onde não consigo
planejar nada, o silêncio (velho amigo) me faz companhia. O silêncio pode pesar uma tonelada, mas também pode ter a leveza de uma
pena. Depende mais de você do que do outro. Sentir com inteligência, pensar com
emoção.
O post de hoje é muito especial, pois é um texto escrito por meu irmão Daniel onde ele fala do livro Maus, livro que está no topo da minha lista de "livros preferidos".
Daniel Neves é formado em História pela Universidade Estadual de Goiás, é por causa dele que me tornei professora. Foi ele quem tanto me incentivou a ler. Admiro demais, nem posso mensurar!
Espero que gostem! Ótima leitura!
***
No prefácio de Gen Pés Descalços,
mangá sobre o ataque nuclear em Hiroshima durante a Segunda Guerra, Art
Spielgeman afirmou: “Os quadrinhos são um meio de expressão de conteúdo muito
concentrado, que transmite informações em poucas palavras (...). Parece-me que
esse é o modo pelo qual o cérebro humano formula pensamentos e lembranças.
Pensamos em desenhos. Os quadrinhos têm demonstrado sua habilidade em contar
história de aventuras e ação ou humor. Mas a pequena escala de imagens e a
franqueza desse meio (...), permitem aos quadrinhos um tipo de intimidade que
também os torna surpreendentemente adequados à autobiografia”.
Com essa citação de Art
Spielgemann fica evidente que o assunto será HQs, porém, será uma em particular
e não será Gen Pés Descalços (ao qual eu ainda estou lendo), e sim, a obra mais
conhecida de Art, Maus: A História de Um Sobrevivente, quadrinho que aborda o
holocausto judaico durante a Segunda Guerra. Maus é uma história biográfica,
porém não de Art (que nasceu em 1948 em Estocolmo), mas de seu pai Vladek
Spiegelman. A história não é novidade pra ninguém: o sofrimento e perseguição
que foi imposta à toda comunidade judaica por onde os Nazistas pisavam, porém
há algo em Maus que o torna único, sinceramente não sei o que apontar, talvez
porque seja uma história contada pelo filho de todo o sofrimento de seu pai.
Aproveitando o gancho vi um comentário na internet que achei MUITO pertinente:
“ Ler o relato de um filho sobre a vida miseravelmente sofrida de seu pai
e ainda assim não usar eufemismos para esconder seus defeitos foi de uma
sensibilidade extraordinária, a despeito de, a princípio, parecer frieza.
Impossível ler sem chorar, mesmo que sem derramar lágrimas”.
O que mais impressiona em Maus é
isso: Art retrata Vladek em todo sentimento, porém não esconde em momento
nenhum seus defeitos, na verdade ele o faz questão de mostrá-los, é fantástico
isso. Vladek encarna o verdadeiro estereótipo do judeu (o próprio Art menciona
isso): sovina, rabugento, sempre querendo tirar vantagem de alguma coisa,
negociante nato etc. Talvez essas características tenham feito Vladek ter
sobrevivido aos campos de concentração, além da sua inteligência. Nos momentos
de maiores dificuldades, Vladek de alguma forma conseguia comida ou melhor
tratamento ou uma maneira de aliviar o seu sofrimento. Claro que Vladek não era
somente defeitos, pois durante todo o livro, Vladek me surpreendeu com ações
generosas, ajudando amigos, parentes e sobretudo sua esposa, Anja. Talvez um
dos momentos que mais me tocaram foi quando Vladek consegue alguma ajuda em
Auschiwtz e além de seu próprio bem, ele pensa em seu primo (eu acho que era
primo, deu branco agora) Mandelbaum.
O mais interessante de tudo é que
mesmo Vladek ter sido vítima de um dos piores massacres da história da
humanidade baseado no mais infundado dos racismos, Vladek não deixa de ser
racistas e pra isso volto a um comentário que eu encontrei na internet: “A
grande “sacada” de Maus está, no meu ponto de vista, no fato de que todos são
ratos. Todos são vilões, todos são vítimas. Nazistas, judeus, poloneses que só
queriam que aquilo terminasse, todos eram ratos acuados, desesperados pela
sobrevivência, apegados em migalhas de esperança. Enquanto o maior de todos
eles estava a salvo dos mísseis, em perigo ante seus próprios fantasmas.
Terminada a Guerra, resta a pergunta: o Holocausto também terminou? Judeus que
sofreram atrocidades por conta da raça são racistas, alemães que viram a queda
de sua nação ainda se consideram superiores, americanos que foram tidos como os
heróis da liberdade são os maiores escravocratas dos tempos atuais. Judeus,
negros, homossexuais, deficientes físicos e mentais e toda e qualquer diferença
AINDA HOJE são perseguidos, julgados, condenados, mandados para os fornos”.
Acho que aí fica a maior mensagem
de Spielgeman: o ser humano mesmo passando pelo pior dos horrores continua
sendo egoísta, mesquinho, racista, etc. Enfim, acho que se eu continuar a falar
começarei a spoilar e isso não seria muito bom pra quem nunca leu o livro. Fica
aí mais essa dica pra quem curte uma boa leitura.
Irmão mais lindo do mundo <3
Referência Bibliográfica
SPIEGELMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. São Paulo: Companhia da Letras, 2009.