O que é ensinar português para falantes de Língua Portuguesa? Essa pergunta deve
estar relacionada à outra: Qual o objetivo de se ensinar português para
falantes de Língua Portuguesa?
Essa
relação se faz necessária se queremos encontrar respostas que consigam alcançar
a complexidade que tais questionamentos nos apresentam.
A
língua portuguesa, assim como qualquer outra língua, além de servir como meio
de comunicação entre os indivíduos de uma sociedade, serve também para
informar, para ordenar ou pedir algo a alguém. Através da linguagem podemos
convencer, ofender, mentir e induzir as pessoas a tomar certas atitudes.
A
variação linguística é um aspecto importante da língua, de acordo com Cagliari
(2007) “Os modos diferentes de falar acontecem porque as línguas se transformam
ao longo do tempo, assumindo peculiaridades características de grupos sociais
diferentes, e os indivíduos aprendem a língua ou dialeto da comunidade em que
vivem” (CAGLIARI, 2007, p.81).
Portanto
a língua sofre influência da região geográfica, do tempo, do gênero, da faixa
etária, do nível de instrução e das condições socioeconômicas.
É
justamente por possuir tantas variáveis que não existe uma língua certa e outra
errada. O que realmente existe são maneiras diferentes de se falar uma língua.
De
acordo com Cagliari (2007) “A língua portuguesa, como qualquer outra língua,
tem o certo e o errado somente em relação à sua estrutura. Com relação a seu
uso pelas comunidades falantes, não existe o certo e o errado linguisticamente,
mas o diferente” (CAGLIARI, 2007, p.35).
O
que se percebe é que a escola tem um apego muito forte às formas ortográficas,
se preocupa muito em ensinar às crianças a escrever corretamente.
Para
Cagliari (2007) o ensino do português é orientado quase que exclusivamente para
a escrita, sendo sua aparência um dos aspectos mais importantes.
Durante
o processo de alfabetização não se explica para as crianças que existe uma
infinidade de formas gráficas, podendo-se escrever uma mesma letra de
diferentes maneiras e isso acaba gerando uma grande confusão na cabeça delas.
Cagliari
(2007) nos alerta para o fato de muitas escolas utilizarem métodos de
alfabetização que ensinam a escrever pela escrita cursiva, o que representa uma
grande dificuldade para as crianças. A escrita cursiva segundo Cagliari (2007),
além de ter um uso muito particular, “é de difícil leitura e exige um domínio
perfeito dos movimentos para a sua realização, o que representa um esforço
muito grande por parte das crianças, que nem sequer conseguem segurar o lápis e
controlá-lo com facilidade” (CAGLIARI, 2007, p.98). Ainda de acordo com esse
autor a escrita de forma seria mais adequada para a fase de alfabetização por
ser mais fácil de aprender e de reproduzir que a cursiva.
A
criança ao ser alfabetizada precisa se sentir livre para traçar as letras da
maneira como consegue, respeitando sua individualidade, sem a imposição de um
modelo que deve ser seguido. Ao escrever ela deve ter um motivo, deve saber
para que e para quem está escrevendo, com qual objetivo, do contrário a escrita
se tornará algo mecânico, desprovido de sentido.
Ao
professor cabe mostrar para seus alunos os diferentes tipos de textos, em que
situação utilizamos cada um deles, como se deve escrevê-los, enfim, devem
discutir com as crianças qual a função social de cada texto.
O
professor deve criar situações que envolvam os alunos no ato de escrever, como
por exemplo, confeccionar os convites para o dia das mães, fazer junto com as
crianças um livro de receitas, criar um mural para enfeitar a sala etc. Essa seria uma boa maneira de se fazer
com que as crianças se interessem mais pelo ato de escrever, pois segundo Cagliari
(2007), “A maneira como a escola trata o escrever leva facilmente muitos alunos
a detestar a escrita e em consequência a leitura, o que é realmente um
irreparável desastre educacional” (CAGLIARI, 2007, p.102).
Na
escola não se ensina aos alunos que eles falam de maneiras diferentes, de
acordo com seus dialetos. Segundo Bagno (2000) “nossa escola não reconhece a
existência de uma multiplicidade de variedades de português e tenta impor a
norma padrão sem procurar saber em que medida ela é na prática uma ‘língua
estrangeira’ para muitos alunos, senão para todos” (BAGNO, 2000, p.29).
O
aluno que chega à escola falando o português não padrão que, segundo Bagno (2000) “é
a língua da grande maioria pobre e dos analfabetos do nosso povo”, será tratado
como burro, incapaz de aprender, com problemas de discriminação visual e
auditiva.
O
que permanece implícito, encoberto nessa situação é o preconceito com relação
aos diferentes modos de se falar o português, por isso quando nos referimos ao
objetivo de ensinar o português, é imprescindível saber qual a posição política
do professor, se ele deseja educar para manter a sociedade tal como ela é ou se
pretende ser um agente transformador da mesma.
O
ensino da norma padrão da nossa língua deve ter por princípio a emancipação dos
indivíduos, tornando-os capazes de enxergar para além da ideologia que os
domina e escraviza. Segundo Cagliari (2007) “A linguagem pressupõe, estabelece
um jogo de direitos e deveres, é usada para marcar pessoas, classes sociais,
reveste as pessoas de poderes e de fraquezas, de estigmas, de preconceitos”
(CAGLIARI, 2007, p.40).
Esse
tipo de ensino exige do professor uma postura de total compromisso com a
transformação social.
Segundo
Bagno (2000), o ensino do português padrão seria uma maneira de proporcionar
aos alunos das classes sociais desprivilegiadas materialmente, armas com as
quais pudessem lutar lado a lado com os indivíduos das classes dominantes para
terem acesso aos bens culturais, econômicos, políticos.
É
preciso ficar claro que quando se enfatiza que existe uma maneira “certa” e uma
“errada” de se falar, o que realmente está em jogo não são as diferenças
linguísticas, mas sim diferenças sociais.
CAGLIARI,
Luiz Carlos. Alfabetização e Linguística. São Paulo, ed. Scipione, 10° edição,
2007.
BAGNO,
Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. 8° ed. São Paulo:
Contexto, 2000.
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