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sexta-feira, 12 de julho de 2013

O que é ensinar português para falantes de Língua Portuguesa?

O que é ensinar português para falantes de Língua Portuguesa? Essa pergunta deve estar relacionada à outra: Qual o objetivo de se ensinar português para falantes de Língua Portuguesa?

Essa relação se faz necessária se queremos encontrar respostas que consigam alcançar a complexidade que tais questionamentos nos apresentam.
A língua portuguesa, assim como qualquer outra língua, além de servir como meio de comunicação entre os indivíduos de uma sociedade, serve também para informar, para ordenar ou pedir algo a alguém. Através da linguagem podemos convencer, ofender, mentir e induzir as pessoas a tomar certas atitudes.
A variação linguística é um aspecto importante da língua, de acordo com Cagliari (2007) “Os modos diferentes de falar acontecem porque as línguas se transformam ao longo do tempo, assumindo peculiaridades características de grupos sociais diferentes, e os indivíduos aprendem a língua ou dialeto da comunidade em que vivem” (CAGLIARI, 2007, p.81).
Portanto a língua sofre influência da região geográfica, do tempo, do gênero, da faixa etária, do nível de instrução e das condições socioeconômicas.
É justamente por possuir tantas variáveis que não existe uma língua certa e outra errada. O que realmente existe são maneiras diferentes de se falar uma língua.
De acordo com Cagliari (2007) “A língua portuguesa, como qualquer outra língua, tem o certo e o errado somente em relação à sua estrutura. Com relação a seu uso pelas comunidades falantes, não existe o certo e o errado linguisticamente, mas o diferente” (CAGLIARI, 2007, p.35). 
O que se percebe é que a escola tem um apego muito forte às formas ortográficas, se preocupa muito em ensinar às crianças a escrever corretamente.
Para Cagliari (2007) o ensino do português é orientado quase que exclusivamente para a escrita, sendo sua aparência um dos aspectos mais importantes.
Durante o processo de alfabetização não se explica para as crianças que existe uma infinidade de formas gráficas, podendo-se escrever uma mesma letra de diferentes maneiras e isso acaba gerando uma grande confusão na cabeça delas.
Cagliari (2007) nos alerta para o fato de muitas escolas utilizarem métodos de alfabetização que ensinam a escrever pela escrita cursiva, o que representa uma grande dificuldade para as crianças. A escrita cursiva segundo Cagliari (2007), além de ter um uso muito particular, “é de difícil leitura e exige um domínio perfeito dos movimentos para a sua realização, o que representa um esforço muito grande por parte das crianças, que nem sequer conseguem segurar o lápis e controlá-lo com facilidade” (CAGLIARI, 2007, p.98). Ainda de acordo com esse autor a escrita de forma seria mais adequada para a fase de alfabetização por ser mais fácil de aprender e de reproduzir que a cursiva.
A criança ao ser alfabetizada precisa se sentir livre para traçar as letras da maneira como consegue, respeitando sua individualidade, sem a imposição de um modelo que deve ser seguido. Ao escrever ela deve ter um motivo, deve saber para que e para quem está escrevendo, com qual objetivo, do contrário a escrita se tornará algo mecânico, desprovido de sentido.
Ao professor cabe mostrar para seus alunos os diferentes tipos de textos, em que situação utilizamos cada um deles, como se deve escrevê-los, enfim, devem discutir com as crianças qual a função social de cada texto.
O professor deve criar situações que envolvam os alunos no ato de escrever, como por exemplo, confeccionar os convites para o dia das mães, fazer junto com as crianças um livro de receitas, criar um mural para enfeitar a sala etc. Essa seria uma boa maneira de se fazer com que as crianças se interessem mais pelo ato de escrever, pois segundo Cagliari (2007), “A maneira como a escola trata o escrever leva facilmente muitos alunos a detestar a escrita e em consequência a leitura, o que é realmente um irreparável desastre educacional” (CAGLIARI, 2007, p.102).
Na escola não se ensina aos alunos que eles falam de maneiras diferentes, de acordo com seus dialetos. Segundo Bagno (2000) “nossa escola não reconhece a existência de uma multiplicidade de variedades de português e tenta impor a norma padrão sem procurar saber em que medida ela é na prática uma ‘língua estrangeira’ para muitos alunos, senão para todos” (BAGNO, 2000, p.29).
O aluno que chega à escola falando o português não padrão que, segundo Bagno (2000)      “é a língua da grande maioria pobre e dos analfabetos do nosso povo”, será tratado como burro, incapaz de aprender, com problemas de discriminação visual e auditiva.
O que permanece implícito, encoberto nessa situação é o preconceito com relação aos diferentes modos de se falar o português, por isso quando nos referimos ao objetivo de ensinar o português, é imprescindível saber qual a posição política do professor, se ele deseja educar para manter a sociedade tal como ela é ou se pretende ser um agente transformador da mesma.
O ensino da norma padrão da nossa língua deve ter por princípio a emancipação dos indivíduos, tornando-os capazes de enxergar para além da ideologia que os domina e escraviza. Segundo Cagliari (2007) “A linguagem pressupõe, estabelece um jogo de direitos e deveres, é usada para marcar pessoas, classes sociais, reveste as pessoas de poderes e de fraquezas, de estigmas, de preconceitos” (CAGLIARI, 2007, p.40).
Esse tipo de ensino exige do professor uma postura de total compromisso com a transformação social.
Segundo Bagno (2000), o ensino do português padrão seria uma maneira de proporcionar aos alunos das classes sociais desprivilegiadas materialmente, armas com as quais pudessem lutar lado a lado com os indivíduos das classes dominantes para terem acesso aos bens culturais, econômicos, políticos.
É preciso ficar claro que quando se enfatiza que existe uma maneira “certa” e uma “errada” de se falar, o que realmente está em jogo não são as diferenças linguísticas, mas sim diferenças sociais.


Referências Bibliográficas:

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e Linguística. São Paulo, ed. Scipione, 10° edição, 2007.


BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. 8° ed. São Paulo: Contexto, 2000.

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