Não estamos em condições de cogitar da formação
de artistas. Para quê educar artistas, quando não há público para apreciá-los,
quando falta ambiente onde possam evoluir? Tudo, pois, está girando em torno de
um problema: educar o povo é dar-lhe o sentido do belo e inculcar-lhe o culto a
arte (VILLA-LOBOS, 1959 p.14 apud BRESSAN, 1989 p.29)
Sendo assim, é necessário compreender
que o ensino da música é importante não para a criação de um artista e sim para
a apreciação da arte, pois é através desta que o indivíduo desenvolve a
sensibilidade, motivação e entusiasmo à criatividade e consequentemente, a
percepção de mundo. Porém é valido ressaltar que a música deve ser entendida
dentro da história, do conflito de classes, da produção cultural em massa, pois
é importante que se tenha uma visão crítica sobre arte, educação e também do
ensino da música, que exige múltiplas interações e contradições (BARRADAS,
2008).
A música em sua essência diz muito sobre
quem a criou e sobre os dilemas de uma sociedade que está em constante
transformação. E é nesse sentido que o professor de música precisa levar o
ensino dessa área da arte, pois como disse anteriormente, a música faz parte da
história, onde as canções estão carregadas de configurações linguísticas,
imagens literárias além, de se constituírem importantes fontes históricas, como
por exemplo, a música de Chico Buarque “Cálice”, que retrata um momento
histórico do nosso país, que foi o período da Ditadura Militar, dentre tantas
músicas e artistas nacionais e/ou internacionais.
Com isso, a formação do professor de
música é de suma importância, pois se percebe que os atuantes nas escolas são
músicos instrumentistas que perceberam na licenciatura uma forma de conseguir
aquele “a mais” financeiro que lhes faltava. Músicos esses, que não tem nenhum
preparo didático e pedagógico para lidar com a rotina da sala e da escola, o
que leva a um ensino técnico e sem nenhum preparo para vida.
É importante compreender a formação do
professor como um processo contínuo, que implica pensar tanto no espaço de
formação como no espaço da atuação e profissionalização do mesmo. Bellochio
(2003) afirma que é necessário compreender a formação do professor para além da
formação inicial, potencializando assim a própria vida do professor em suas
práticas educativas e sua formação para a autonomia.
No caso específico do professor de
música, além das práticas pedagógicas, os formadores precisam se atentar para
múltiplas formas de ensinar música no social, sendo encarado à produção musical
fora do espaço escolar.
A formação do professor de música
precisa ser desenvolvida tanto no campo da música e do saber pedagógico da
educação, onde serão contextualizados e vivenciados. É importante ressaltar que
o professor de música precisa se construir como sujeito que transcende o
próprio objeto do conhecimento – música – e que tem sólida formação cultural.
Isso diz respeito ao domínio do conhecimento em educação musical e pedagógico,
que podem lhe possibilitar o crescimento pessoal e compreensão do processo
ensino/aprendizagem da música.
Vianna (1993) declara que a diferença
entre os cursos de licenciatura e bacharelado em música é a epistemologia,
baseada na dicotomia ensino-pesquisa entre o saber e o produzir o conhecimento
(VIANNA, 1993 p. 27 apud DENARDI,
2008 p. 56). Sendo assim a formação do professor de música necessita de
cuidados referentes ao currículo e a formação pedagógica do mesmo, atentando-se
não para a aptidão e talento musical, mas sim tendo em mente que o ensino da
música é uma área do conhecimento que precisa ser aperfeiçoada, onde o processo
ensino-aprendizagem está sempre em pauta.
Quanto ao currículo é importante salientar
que as disciplinas musicais, pedagógicas e didáticas devem ser niveladas com o
mesmo grau de importância, para que a formação do professor de música alcance
todos os níveis de excelência, onde o conteúdo e a metodologia sejam revistos
para que haja a possibilidade de melhoria no ensino-aprendizagem.
Assim, a base para um ensino de
qualidade no campo da música é, entender que ela não é apenas uma meta da
Educação, mas também um processo que é fundamentalmente criativo, onde prepara
o individuo para a cidadania, criando e consolidando o sentido da autonomia,
onde o ser e a sociedade podem ser interpretados à medida que são analisados,
ou seja, gera no individuo concepção de mundo.
Sobre isso, Nunes (1996) afirma que:
Essa expressão representa a
maneira como o homem pensa a sociedade, o conhecimento científico, a educação,
a escola, a organização da cultura e da política. Em outras palavras, concepção
de mundo é o conjunto de conceitos que constrói a ideologia do professor.
(NUNES, 1996, p.11 apud BARRADAS,
2008 p. 82)
Concepção de mundo, nada mais é do que
conceitos que são construídos, e o professor de música se torna indispensável
nesse processo, pois o professor é o mediador do conhecimento, é aquele que
fornece subsídios necessários para o desenvolvimento do seu aluno. A forma como
a criança percebe o mundo a sua volta depende de como o professor o interpreta,
sendo esse o mediador.
É interessante perceber que ao situar a
música em um contexto histórico, onde o seu conteúdo é carregado das mazelas sociais
e as dores do amor, entendemos que a música e as palavras unidas formam um
todo, e que nenhuma das duas separadas poderia evocar. Sendo assim, o ensino da
música vai muito além do que apenas cantar, tocar um instrumento ou dominar a
teoria musical. Diz respeito do universo de uma pessoa, das suas construções e
desconstruções em relação a ideais, valores, de quem ele é e pretende ser, e de
como se encontra o mundo a sua volta.
REFERÊNCIAS
BARRADAS, F. C. A
Historicidade da canção e a aplicação pedagógica, p. 79-94, abr./jun. 2008.
Akrópólis: Revista de Ciências Humanas da Universidade Paranaense. Umuarama,
1997.
BELLOCHIO,
Cláudia Ribeiro. A formação profissional do educador musical:
algumas apostas. Revista da ABEM,
Porto Alegre, v.8, 17-24, mar. 2003.
BRESSAN, Wilson José. Educar cantando: a função educativa da música popular. –
Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
DENARDI, Christiane. Professores de música: história e perspectivas. Curitiba: Juruá,
2008.
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