Boa noite J
Desde o início de agosto venho
postando textos de autores que eu particularmente gosto muito.
Para fechar com chave de ouro as
publicações desse mês (e sim, eu sei que hoje não é segunda-feira, mas não
poderia deixar esse texto de fora), o texto de hoje é Do Amigo, escrito por Nietzsche e você pode encontrar no livro Assim falava Zaratustra, obra memorável
do autor e um dos meus livros preferidos.
Queria deixar registrado esse
texto, pois traduz um pouco os dias que tenho vivido.
Espero que gostem tanto quanto
eu.
Ótima leitura!
P.S: Mulheres, não liguem para os adjetivos cruéis que Nietzsche usa para se referir a nós. É mal de amor!
(***)
DO AMIGO
“Um só me assedia
sempre excessivamente (assim pensa o solitário). Um sempre acaba por fazer
dois!”
“Eu e Mim estão
sempre em conversações incessantes. Como se poderia suportar isto se não
houvesse um amigo?
Para o solitário o
amigo é sempre o terceiro; o terceiro é a válvula que impede a conservação dos
outros dois de se abismarem nas profundidades.
Ai! Existem
demasiadas profundidades para todos os solitários. Por isso aspiram a um amigo
e à sua altura.
A nossa fé nos outros
revela aquilo que desejaríamos crer em nós mesmos. O nosso desejo de um amigo é
o nosso delator.
E freqüentemente,
como a amizade, apenas se quer saltar por cima da inveja. E freqüentemente
atacamos e criamos inimigos para
ocultar que nós mesmos somos atacáveis.
“Sê ao menos meu
inimigo!” — Assim, fala o verdadeiro respeito, o que se não atreve a solicitar
a amizade.
Se se quiser ter um
amigo, é preciso também guerrear por ele; e para guerrear é mister poder ser
inimigo.
É preciso honrar no
amigo o inimigo. Podes aproximar-te do teu amigo sem passar para o seu bando?
No amigo deve ver-se
o melhor inimigo. Deves ser a glória do teu amigo, entregares-te a ele tal qual
és?
Pois é por isso que te manda para o demônio!
O que se não recata,
escandaliza. “Deveis temer a mudez! Sim; se fosseis deuses, então poderíeis
envergonhar-vos dos vossos vestidos”.
Nunca te adornarás
demais para o teu amigo, porque deves ser para ele uma seta e também um anelo
para o Super-homem.
Já viste dormir o teu
amigo para saberes como és? Qual é, então, a cara do teu amigo? É a tua própria
cara num espelho tosco e imperfeito.
Já viste dormir o teu
amigo? Não te assombrou o seu aspecto? Ó! meu amigo; o homem deve ser superado!
O amigo deve ser
mestre na adivinhação e no silêncio: não deves querer ver tudo. O teu sono deve
revelar-te o que faz o teu amigo durante a vigília.
Seja a tua compaixão
uma adivinhação: é mister que, primeiro que tudo, saibas se o teu amigo quer
compaixão.
Talvez em ti lhe
agradem os olhos altivos e a contemplação da eternidade.
Oculte-se a compaixão
com o amigo sob uma rude certeza.
Serás tu para o teu
amigo ar puro e soledade, pão e medicina? Há quem não possa desatar as suas
próprias cadeias, e todavia seja salvador do amigo.
És escravo? Então não
podes ser amigo.
És tirano? Então não
podes ter amigos.
Há demasiado tempo
que se ocultavam na mulher um escravo e um tirano. Por isso a mulher ainda não
é capaz de amizade; apenas conhece o amor.
No amor da mulher há
injustiça e cegueira para tudo quanto não ama. E mesmo o amor, reflexo da
mulher, oculta sempre, a par da luz, a surpresa, o raio da noite.
A mulher ainda não é
capaz de amizade: as mulheres continuam sendo gatas e pássaros. Ou, melhor,
vacas.
A mulher ainda não é
capaz de amizade. Mas dizei-me vós homens: qual de vós outros é, porventura,
capaz de amizade?
Ai, homens! que
pobreza e avareza a da vossa alma! Quando vós outros dais a vossos amigos eu
quero dar também aos meus inimigos sem me tornar mais pobre por isso.
Haja camaradagem.
Haja amizade.”
Assim falava
Zaratustra.

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